DIOMAR KONRAD
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Diversas manifestações de apoiadores do presidente – os chamados bolsonaristas – tem questionado o direito de governadores e prefeitos de impor limites à circulação de pessoas.
Aliam-se a estes muitos empresários, não necessariamente alinhados com o mandatário maior do país, mas que estão sendo prejudicados pelas restrições, exigindo a abertura de suas empresas, inclusive com muitos apelando para um jogo de palavras – dizendo que sua atividade também é essencial.
Se pensarmos bem, então, toda atividade que sustente a alguém é essencial, pelo menos para ele ou para quem depende ou estiver envolvido no tema.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O petróleo não é nosso
Alguns estão sugerindo abertamente a desobediência civil, ou seja, não respeitar os decretos.
O presidente tem referido constantemente – inclusive entrou no Supremo com ação neste sentido – que os governadores e prefeitos estão implantando restrições comparáveis a um estado de sítio, alegando que essa prerrogativa é dele.
Ou seja, está sinalizando que pode elaborar um decreto neste sentido, o seu próprio estado de sítio – com o objetivo de manter a ordem no país.
Então fiquei pensando: se o presidente considera que os governadores e prefeitos têm decretado estado de sítio, assim, com uma certa ponta de inveja, decretará o seu estado de sítio para contrapor o deles.
Não seria exatamente de restrições, mas sim de aglomerações.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O recall
Pelo decreto presidencial, o comércio, a indústria e a prestação de serviços seriam todos obrigados a funcionar, com capacidade máxima de lotação.
As escolas voltariam imediatamente a funcionar, com todos os alunos e professores.
Bares, clubes e academia reabririam em grande estilo, com grandes promoções para atrair de volta seu público.
Aglomerações seriam estimuladas com grande fiscalização.
Pessoas que estivessem isoladas poderiam ser detidas ou pagar multa pela sua atitude antipatriótica.
DIOMAR KONRAD – Crônica: A indenização
Ninguém mais poderia ficar em casa. As pessoas teriam que abandonar a sua residência por pelo menos seis horas por dia.
Os ônibus não saíram do ponto se não estivessem abarrotados. Os comerciantes informais seriam notificados se faltassem ao seu local de trabalho.
As torcidas organizadas seriam convocadas para lotar os estádios.
A utilização do termo festas clandestinas seria abolida dos noticiários, sendo substituído por confraternizações democráticas.
A imprensa, por sua vez, estaria proibida de divulgar números da pandemia e mostrar situações de morte ou superlotação dos hospitais, muito menos sobre o andamento da vacinação.
DIOMAR KONRAD – Crônica: Download
O mundo seguiria seu percurso normal, com reportagens mostrando a economia proliferando. Más notícias e tragédias seriam abolidas dos telejornais.
Nas redes sociais, as tropas bolsonaristas fariam vasculhamentos diários contra ideias que atentassem contra a nova ordem, garantindo a suspensão da conta e até mesmo complicações maiores.
E os prefeitos e governadores seriam retirados de seus cargos, pois suas atitudes estariam comprometendo a ação do Estado, talvez até em prisão domiciliar.
DIOMAR KONRAD: Crônica: O provedor
O Brasil entraria em um novo tipo de estado de sítio, o estado de aglomeração, pelo qual qualquer restrição comprometeria a garantia da lei e da ordem.
E o coronavírus? Bem, este não poderia ser consultado, visto que nem ele nem suas variantes possuem cidadania.
Mas, com certeza, estaria muito feliz com a repentina mudança de ordem, com todo mundo junto, enturmado.

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