SABRINA SIQUEIRA
Jornalista e podcaster do Literatura Oral
Sabrina Siqueira – Podcaster do Literatura Oral
O feminismo é um tema que, geralmente, gera polêmica. Com diferentes vertentes e defensores que nem sempre concordam entre si, o tema foi alardeado e desprezado já pela sua primeira pensadora no Brasil, Nísia Floresta.
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Professora, escritora e fundadora de colégios para meninas no século XIX, ela é apontada pela docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Constância Lima Duarte, como primeira redatora de um texto latino americano como ação consciente empreendida na defesa do sexo feminino. Mas quem foi essa figura precursora na defesa dos direitos das mulheres?
Nísia Floresta Brasileira Augusta ou somente Nísia Floresta foi o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto. Ela nasceu em Papari, Rio Grande do Norte, em 1810, e faleceu nos arredores de Rouen, na França, em 1885.
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Contribuiu para o avanço da educação feminina no país porque entendia a importância do ensino para a valorização social do gênero feminino, questão que sempre foi de seu interesse. Além do RN, morou em Pernambuco, no RS e no RJ.
Depois, mudou para a Europa e morou em diferentes países. Isso numa época em que a maioria das mulheres passava a vida em casa.
Nísia escreveu livros defendendo os direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.
Foi uma das primeiras brasileiras a publicar textos em jornais da grande imprensa nacional e a primeira brasileira a abrir um colégio para moças que ensinava gramática da língua portuguesa, línguas estrangeiras como italiano, francês e inglês, latim, história e geografia do Brasil.
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Na época, até existiam outros colégios para moças, mas eram administrados por estrangeiras e só ensinavam prendas domésticas, como costura e bordado.
Implementou a proposta de que a mulher é capaz de exercer os mesmos espaços de poder que os homens no Colégio Augusto, que manteve no RJ entre 1838 e 1855.
O lema de Nísia em muitos de seus textos e trabalhos era que o progresso social de uma nação dependia do grau de emancipação feminina e do lugar reservado às mulheres na sociedade.
A escola dela trouxe avanços consideráveis para a educação do seu tempo.
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Em sua obra literária, Nísia deixa claro o propósito de formar e modificar consciências.
Seu primeiro livro de cunho feminista e que se desdobrou em outros escritos foi Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, defendendo os direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e exigindo que sejam consideradas inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade, ao desmistificar a ideia vigente da superioridade masculina.
Em 1853, publica Opúsculo humanitário, um texto panfletário com a síntese de suas críticas à educação, suas propostas de mudança e a expressão do desejo de uma completa transformação no sistema educacional.
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Mas depois de muito publicar sobre a necessidade de mulheres receberem instrução formal e da capacidade feminina em trabalhar, Nísia cede ao patriarcalismo e passa a sugerir que o protagonismo feminino se dá mesmo é na maternidade, e que meninas devem ser educadas com supervisão materna.
Com o passar dos anos, Nísia se deixa contaminar por ideias moralistas, positivistas e de cunho religioso. Com isso, ela se aproxima de teorias que havia passado anos tentando combater.
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Das obras literárias da escritora destaco a novela Fany ou o modelo das donzelas, publicada pela primeira vez em 1847 e cuja segunda edição surgiu a partir de um manuscrito encontrado na biblioteca da família de Antônio Augusto Borges de Medeiros, que foi presidente do RS durante a República Velha.
Esse manuscrito foi doado ao historiador Fernando Osório Filho, que o incluiu no livro Mulheres Farroupilhas, de 1935, junto a um estudo de mulheres que participaram da Revolução Farroupilha.
Fany é uma novela de cunho didático-moralista dedicada às jovens do Colégio Augusto. Pretendia educar a partir de bons exemplos morais.
A história se passa em POA, durante a Revolução Farroupilha. A protagonista é uma adolescente, filha mais velha de um casal engajado na causa dos farrapos.
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O pai se torna chefe de um grupo e a mãe entusiasta das ideias liberais, apoiando o marido em suas expedições.
Apesar do envolvimento da família, Fany não toma partido na revolução. Ela assume o comando da casa e o cuidado com os irmãos menores.
Esse texto é exemplar do quanto Nísia Floresta foi uma figura contraditória.
Ao mesmo tempo em que apresenta um tom favorável à revolução e reconhece a bravura das mulheres que se engajaram na luta, como a mãe de Fany, destaca a protagonista como exemplo da mocinha obediente e recatada que ela queria para as alunas em seus últimos tempos como educadora.
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No final da narrativa, prevalece o aspecto moralista e a narradora faz reprimendas às mulheres que se envolveram no conflito e esqueceram das “virtudes pacíficas de seu sexo”.
Pode-se dizer que Nísia abriu caminho para uma discussão que antes era impensável: a de mulheres atuantes e independentes. Ela ajudou em uma etapa da história da libertação da mulher brasileira, portanto.
A história de Nísia Floresta, os avanços e recuos dessa nordestina lúcida e articulada no que se refere ao feminismo, mostram como é longa e tortuosa a jornada na construção de uma identidade feminina respeitada e “tolerada” na ocupação de cargos de destaque na sociedade brasileira.

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