JULIO PUJOL
jupujol@gmail.com
Professor de História e consultor político*
As chamadas “Fake News” têm sido um fato duro nos últimos processos eleitorais. Temos trabalhado este tema em sala-de-aula no nosso curso de Pós-graduação em Alta Política.
Notícias falsas e manipulações de informações, com objetivos específicos, sempre fizeram parte dos processos eleitorais.
Basta lembrar “daquela” pesquisa encomendada e distribuída nas esquinas para influenciar o voto, ou, mais antigamente, daquele texto ou notícia fotocopiado, apócrifo, e também distribuídos de mão em mão para arranhar a imagem de algum candidato opositor.
A diferença hoje é que as possibilidades de comunicação aumentaram em uma proporção geométrica a quantidade e o alcance das falsas notícias. E também da sua produção.
GILSON PIBER – Opinião: Discursos atrasados
Podemos falar de uma Terceira Geração das Fake News. E vamos fazer aqui uma abordagem um pouco diferenciada deste fenômeno.
É preciso lembrar que, na internet, também se ganha dinheiro difundindo notícias falsas. Virou quase uma profissão para alguns.
E existem também os chamados “robôs”, perfis falsos, que ajudam a multiplicar essas notícias. Estamos numa escala de produção industrial, fordista.
De fato, as falsas notícias não são uma exclusividade da política e dos processos eleitorais.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: “Passos do Vislumbre”
Fazem parte da nossa história, da nossa ciência, da nossa mídia, mesmo da nossa academia, e até dos nossos afetos.
E do mesmo modo como invadiram os processos eleitoras, invadiram nosso cotidiano em escala geométrica.
Mas queria aqui começar a responder uma pergunta: se sabemos que existe um mar de notícias falsas, porque as reproduzimos?
Sim, somos nós quem as produzimos, lemos e compartilhamos (além do fato que somos nós, humanos, quem as produzimos).
Por quê? Solucionar o problema parte por compreender e responder essa interrogação.
JOÃO LUIZ VARGAS – Opinião: E foi combinado
Vivemos numa sociedade afastada da verdade. O ser humano não conhece a si mesmo.
O ser humano não conhece a verdade de si mesmo, quem ele de fato é. E de certa forma não quer conhecer, porque isso implicaria a obrigação de responsabilizar-se e, o mais difícil, eventualmente mudar.
Uma sociedade baseada no desconhecimento de si mesma, em que cada um falseia um pouquinho, é um terreno fértil para as Fake News.
Reafirmo, somos nós quem compartilhamos as falsas notícias. E com um certo prazer.
SABRINA SIQUEIRA – Opinião: Nísia Floresta, feminista e moralista
Porque somos assim, vivemos assim o tempo todo. Nos desresponsabilizamos.
Ou existe quem olha verdadeiramente para si mesmo pela manhã e ao final do dia?
Somos fake; nossas músicas são fake, nossos programas televisivos são fakes, nossos jogos virtuais são uma realidade fake. Enaltecemos a distração, a buscamos, achamos que temos direito a ela.
Mas ‘distração´ em sua etimologia é: (latim: distractio + onis) = afastamento, separação, dispersão, da direção da ação.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O estado de aglomeração
Significa que, na prática cotidiana, buscamos nos dispersar, nos alienar, do vivo da ação.
Distração, em sua etimologia não é divertimento. É afastamento do real; é tirarmos a atenção daquilo que realmente importa (o real) e vivermos como objetos da vida, não como sujeitos e protagonistas.
Platão há mais de dois mil anos atrás já alertava sobre a produção cultural da sociedade e ensinava a manter vigilância sobre ela.
Diferenciava o filósofo grego a “doxa” ou opinião, da verdade. “Verdade” é aquilo que o homem é de fato, para além da doxa. A verdade é o que é, portanto não é doxa nem fake.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
Se fôssemos verdadeiros e íntegros conosco mesmos as Fake News não proliferariam, ou melhor, nem existiriam.
Portanto, a solução, como sempre, está no indivíduo. Não bastam novas leis e novas sanções.
Obs.: a ação, a verdade, o real, (que são o avesso da distração) são também o pé descalço na grama, um perfume, um toque, o mar… quando há a interação (total) entre sujeito (eu) e o objeto.
MARCOS RIBEIRO – Opinião: Já atingimos o colapso?
Ou seja, pode ser uma reunião de trabalho ou a preparação de um bom prato, pode ser a realização de uma tarefa, ou observação de uma bela obra de arte. É o instante total da ação. Esse é o real. É um eis-me aqui.
O verdadeiro não suporta o falso. Assim como o falso, por óbvio, não suporta o verdadeiro.
*Julio Pujol é fundador e diretor do Instituto Alta Política, diretor executivo da Revista Alta Política, coordenador da Pós-graduação em Alta Política da Faculdade Monteiro Lobato de Porto Alegre

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