SABRINA SIQUEIRA
Jornalista e podcaster do Literatura Oral
Quando eu ingressei na pós-graduação em Estudos Literários, um conhecido questionou o porquê de existir bolsa de pesquisa na área de literatura.
Segundo ele, literatura é para entretenimento e não faz sentido dispensar dinheiro público em áreas que não sejam Exatas ou Saúde.
Ele, que é ou foi militar, perguntou qual seria a importância de se pesquisar literatura.
E essa pergunta me atormentou durante boa parte da pós, porque não conseguia colocar em palavras a importância que sentia na pesquisa acadêmica em literatura.
Causou estranhamento o comentário desse senhor que conheci porque ele parecia ser um leitor ávido, gostando de comentar o que lia, e lia boa literatura.
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No entanto, o entendimento dele era de que a literatura deveria ficar como entretenimento, não havendo necessidade de um campo de pesquisa em universidades, com investimento na forma de bolsas aos pesquisadores.
Entrei no mestrado, portanto, sem conseguir expressar argumentos para convencê-lo da relevância de minha nova atividade.
Até que esbarrei na frase do poeta Ferreira Gullar de que “a arte existe porque a vida não basta”, que explica a importância da existência da arte, mas não a do investimento em pesquisa na área dos estudos literários.
Mas a mim bastou porque estava avançando em minha dissertação e já não convivia com esse senhor, a quem acabei nunca respondendo.
No dia 1º de maio comemora-se o Dia da Literatura Brasileira, por ser aniversário do profícuo escritor José de Alencar.
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E não deixa de ser irônico que um dia dedicado à literatura brasileira seja também a data de comemoração internacional aos trabalhadores.
Porque vira e mexe ainda acontece de escritores, pesquisadores e pessoas que trabalham com literatura em geral terem a relevância do seu trabalho questionada.
Principalmente durante períodos de governos autoritários, que têm entre suas características não incentivar produção cultural e pesquisa, além de priorizar áreas técnicas para recebimento de investimentos no ambiente acadêmico.
Governos assim providenciaram algumas das cenas mais grotescas envolvendo livros (teóricos e literários) que a humanidade teve o desprazer de presenciar, como queimá-los em praça pública.
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Atualmente o governo federal brasileiro ameaça aumentar as taxas sobre o setor de livros com o argumento ridículo de que pobres não leem.
Dirigentes inteligentes e ocupados em tornar a população mais culta usariam o mesmo argumento para baixar os impostos incidentes sobre publicação, circulação e vendas de livros, como forma de incentivo à leitura, mas não é o caso.
Uma pena não terem pensado também em taxar helicópteros e lanchas, talvez por receio de tirar dos pobres esses dois meios de transporte, tão utilizados nas periferias brasileiras.
Durante as duas décadas do governo militar no Brasil, mesmo havendo uma quantidade grande de analfabetos (totais ou funcionais) e com um público leitor ainda menor do que o de hoje, a censura institucional dispensou horas de lupa e pente fino sobre a produção literária de autores nacionais, entre eles Gullar, que precisou se exilar por ser um artista engajado e opinativo em uma época em que ter opinião podia ser letal.
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Mas por que governantes antidemocráticos e seus apoiadores são usualmente rápidos em destruir livros e desqualificar a pesquisa literária como profissão?
Talvez pela tendência da literatura em carregar ideais de humanismo e empatia, tocando gerações de uma forma que proibições, regras e a burocracia não sobrevive para ver.
A boa literatura perdura e pode ganhar status de documento e instrumento de denúncia quando analisada sob enfoque de pesquisa séria, colaborando para relatar atrocidades. Não bastasse isso, estimula a leitura crítica.
Algumas vezes, o discurso literário está alicerçado em histórias individuais que reverberam indícios de fatos, e isso explica a pressa em negar a relevância da pesquisa na área por parte dos autoritários, que correm a apagar narrativas com potencial para ajudar a contar a história oficial.
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Eu gostaria que houvesse maior carga horária para a disciplina nos colégios.
E que todos os cursos de graduação pudessem ter, ao menos, um semestre de literatura, de modo que profissionais de diferentes áreas tivessem a chance de experimentar as vantagens do estudo literário como auxiliar na construção de habilidades ao longo de sua formação acadêmica, tais quais interpretação aprofundada nos diversos textos que nos circundam.
Mas, enquanto a realidade aponta para livros ainda mais caros, busco apoio nas palavras de Ferreira Gullar, para quem a importância da arte é tão certa quanto dois e dois são quatro.
O poeta sabia que a vida vale a pena, ainda que o pão seja caro e a liberdade pequena. Porque acreditava que um tempo de alegria, por trás do terror acena.

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