DIOMAR KONRAD
Publicitário
Assim que iniciou a pandemia, ele tomou a primeira decisão. A empregada ficaria em casa, mas recebendo o salário.
– Não é justo que a parte mais fraca da relação fique prejudicada. Ela que se cuide.
Passaram-se alguns dias e a roupa suja começou a ficar acumulada.
– Chama uma tele e leva lá na casa da empregada que ela lava. Afinal, está recebendo e pode fazer isto.
Recebe um telefonema da empregada. Lá não tem máquina de lavar roupa.
– A senhora pode comprar uma na loja que eu pago as prestações.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O estagiário do Kydo
Alguns dias depois, a empregada voltar a ligar. Aumentou muito o custo da energia elétrica com a máquina de lavar, que também seca.
– A senhora manda a conta junto com as roupas que eu pago.
Em casa, a situação estava ficando ruim, pois as crianças não tinham quem cuidasse delas.
– Falei com a empregada. As crianças vão ficar por lá durante o dia.
Mas na casa da empregada não tem internet. Como as crianças vão estudar online?
– A senhora pode instalar uma assinatura de televisão com internet que eu pago.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O estado de aglomeração
Mas tinha outro problema. Na casa da empregada, não tinha uma televisão que fosse adequada.
– A senhora pode comprar uma televisão grande que eu pago as prestações.
Mas como as crianças vão ficar o dia inteiro lá. A casa é muito pequena.
– A senhora pode fazer um puxadinho aí. Compra os materiais e contrata a mão de obra que eu pago.
Mas as crianças também precisam se alimentar durante o tempo que ficam aqui, disse a empregada.
– A senhora pode abrir uma conta no mercadinho. Eu pago
A coisa começou a pesar.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O petróleo não é nosso
Era a tele para levar e trazer a roupa. A van para que as crianças fossem e voltassem em segurança. As compras do mercadinho. A conta de luz. A conta da Internet.
A prestação da máquina de lavar e secar. O carnê da televisão. A obra do puxadinho. E o salário da empregada.
Todo o envolvimento de ida e vinda, os horários e o pior, a casa estava cada vez pior. Ninguém achava mais nada, estava tudo desorganizado.
– A senhora pode voltar a trabalhar aqui em casa?
Mas já era tarde.

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