LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Santa Maria comemora 163 anos sem festividades populares, assim espero, neste 17 de maio pandêmico. Imagino que, ano passado, a efeméride também tenha transcorrido sem aglomerações e sem abraços, em função das medidas de distanciamento social. De longe, aqui vai meu abraço, junto aos melhores e mais sinceros votos de felicidades.
A data evoca nostalgias de uma Santa Maria já quase imaginária, habitada por saudosos personagens e doces memórias afetivas.
Diante dos contrafortes da serra, ressurgem lembranças, imagens e sensações envoltas no manto da cerração de feriados de maios longínquos ou nem tanto. O primeiro insight, quase um déjà vu, chega polissindético com paladar de Cyrillinha.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Minha sogra é uma peça
Na infância ali no Bairro do Rosário – o “Rincão das Padorgas” da poesia de Chico Ribeiro –, os aniversários e os feriados tinham o sabor da pura casca da laranja.
Por vezes, engasgávamos de excitação com largos goles do refrigerante sorvidos entre gargalhadas pueris, que pareciam querer sair pelo nariz e efervesciam como lágrima gaseificada escapando pelos cantos dos olhos.
Os inocentes feriados de maio me levavam ao sítio do Seu Rios, no Jardim da Serra, ou à chácara do Eduardo Trevisan, em Camobi.
Com mais freqüência, às casas dos parentes, pequenos agricultores, no Alto da Palmeiras e no Sarandi, onde o bicho do mato que sou encontrava sua essência telúrica elementar.
Quando na cidade, passávamos o feriado em intermináveis torneios de futebol no campinho “da Oitava”.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Já adolescente, os ritos urbanos de iniciação tornavam o feriado propício para peregrinações em visitas a amigos de bairros mais distantes.
Os trajetos vencidos a pé ou de bicicleta eram repletos de jovens beldades, às quais disparávamos olhares carregados de hormônios juvenis pelas calçadas e varandas.
Na boemia da juventude, espichávamos as noitadas de véspera de feriado convivendo com poetas, músicos, gente de teatro, ébrios profetas, filósofos mundanos e malucos beleza, nas idas e vindas do périplo pelos bares da Praça Saturnino de Britto, da Tuiuti e da Presidente Vargas.
Se fosse sexta-feira, tinha Boate do DCE. Às vezes um pouco esvaziada, porque os estudantes de fora aproveitavam o feriado para visitar a família em suas cidades de origem.

LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
Em maio tinha Tertúlia Nativista, e os preparativos para o acampamento na Estância do Minuano, nosso Woodstock de bombacha, começavam bem antes. Não raro, o festival acontecia em plena Semana de Santa Maria.
A Semana de Santa Maria, com ou sem Tertúlia, era repleta de eventos culturais da melhor qualidade. Agenda farta e diversificada de atividades artísticas com atrações locais, regionais e nacionais.
Nos últimos anos da década de 80 e nos primeiros de 90, tínhamos as noitadas do lendário e surreal Panacéia Bar, palco que lançava e consolidava músicos locais, além de receber artistas da cena estadual.
As manhãs e tardes do feriado podiam contar com um churrasco na chácara do Aristides, em plena área urbana, na Vila Caramelo, ou em algum recanto à beira dos lagos e cascatas de Itaara, de Três Barras ou da Quarta Colônia.
LARRÉ – Crônica: Um gato vadio, o mago e Raul Seixas
No mês de maio já tínhamos bergamota para descascar ao sol, em chimarreadas e piqueniques pelo Campus da UFSM ou pelo Parque Itaimbé.
Havia shows de rock, de jazz, de samba, de blues ou de MPB na Concha Acústica e no “Bombril”, equipamentos culturais que alguma escavação arqueológica ainda há de redescobrir no passado perdido de Santa Maria.

O feriado de aniversário da cidade também era oportunidade de encarar a estrada com uma mochila nas costas e o polegar apontando o caminho da sorte. Conforme o bolso permitisse, tínhamos o trem comum ou o húngaro, para chacoalhar no rumo da fronteira ou da capital.
Caímos na estrada como Dean Moriarty e Sal Paradise: on the road em feriadões beatniquins.
Lembro um 17 de maio, pela metade dos anos 90, quando, morando em Joinville, reunimos a colônia de jornalistas santa-marienses (de nascimento ou formação) para celebrar a data.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Teteza
Choramos abraçados com o multitalentoso Eurico Meira – então, meu pupilo e hoje executivo da Rede Globo na Bahia – tocando “Santa Maria”, do Beto Pires, ao violão.
(Suspiro!)
“Todos aqueles momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”, diz o personagem Roy Batty, vivido por Rutger Hauer, em Blade Runner (Ridley Scott, 1982).
Corta para estes dias distópicos e antagônicos àquela Santa Maria vislumbrada em escritos do Sérgio Metz “Jacaré”, na qual seguíamos o chamado tribal da música do Quintal de Clorofila.
“Cabelo ao vento, gente jovem reunida”, cobríamo-nos da esperança de uma geração que presenciou os últimos estertores do regime militar, lutou e experimentou os primeiros sopros da redemocratização do país. “Na perede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais”, canta Belchior.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: 1964 e algumas realidades alternativas
Neste aniversário de Santa Maria, resgato gotas de lágrimas levadas pelas chuvas e pedaços de sonhos extraviados pelos caminhos daquela nossa Cidade Cultura, Cidade Universitária, Cidade Ferroviária, Coração do Rio Grande. A terra onde nasci e que tanto amei parece só existir na bruma das reminiscências, resguardada pela cerração, esse peculiar fenômeno natural que me agrada bem mais que o vento norte.
Meu mais sincero desejo de felicidade para minha cidade e para meus conterrâneos é de que, no ano que vem, possamos voltar a nos abraçar e a dançar a música da esperança.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: “Passos do Vislumbre”
Que tenhamos vencido não apenas a pandemia da Covid-19, mas também os vírus do negacionismo, da polarização, da truculência, da ignorância, da falta de diálogo, do egoísmo, de desumanidade, da insensibilidade, do preconceito e do ódio.
Desta vez, vou trocar o “Parabéns a Você” por um minuto de silêncio em respeito a quase setecentas vítimas fatais da gripezinha na comarca até o momento, dentre as quais, dezenas de amigos.
Que possamos sobreviver e, bem velhinhos, termos fôlego para soprar muitas velinhas de 17 de maio.

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