LUDWIG LARRÉ
Jornalista
Junho, em função dos levantes de Stonewall, em 1969, é o Mês do Orgulho LGBT. Minha condição de homem branco hétero, que dispõe de algum canal como este para manifestar opinião, exige que não me cale.
Sobretudo, em um momento em que andamos em marcha à ré na auto-estrada da história em questões como diversidade, tolerância, inclusão e combate à LGTBfobia e à violência de gênero.
Em um país que, ao invés de evoluir, regride em maturidade social, é preciso dar um “prest’tenção” no idiota da turma da quinta série, que ainda habita dentro de muitos de nós.
Publicamente, peço mil perdões pelas vezes em que, lá pela quinta série, em efeito manada, fiz coro ao bullying de gênero.
LUDWIG LARRÉ: O homo algoritmo
Por outro lado, sempre fui o cara que intervinha, às vias de fato sempre que preciso, contra atos de humilhação e covardia.
Antes de terminar o ensino fundamental, entretanto, já tinha me dado conta de que piadinhas que fazia, ou das quais ria, doem tanto quanto ou mais do que socos na boca do estômago.
Venci a quinta série. Teve gente que repetiu, teve gente que largou a escola. Tem gente com diploma que ainda apoia o inominável com sólidos argumentos do idiota da quinta série.
Desde os primeiros processos de elaboração de raciocínio dos quais tenho lembrança, na época em que balbuciei as primeiras palavras, busco entender, conviver e aprender justamente com as diferenças.
Talvez por isso, desde a infância, amigos e amigas com diversas identidades de gênero, me chamam de “diferentão”. Fico lisonjeado. Viva a diversidade!
LUDWIG LARRÉ – Crônica: O aniversário
Quão privado de conhecimento eu seria sem os professores e professoras além do binário de gênero, que contribuíram na minha formação escolar, humana e espiritual?
Quão inculto, sem a literatura, a música, o cinema, o teatro, a dança, as artes visuais, caso me limitasse à produção de heterossexuais?
Quão paupérrima seria minha produção profissional sem os colegas e gestores LGBT com os quais interagi, interajo e aprendo a cada dia?
Quão sem graça teriam sido as mesas de bar sem o humor ferino e o raciocínio supersônico dos amigos gays? “Bixa burra, nasce morta!”, me diz um dos mais amados. E sem a sinceridade e a autenticidade das amigas lésbicas? Sem a coragem das amigas trans?

Quão triste seria meu corpo, se não tivesse dançado e cantado alucinadamente em um show de rock de algum ídolo gay, bi, trans ou lésbica? Quão só estaria sem meus brothers e sisters LGBT, em quem posso confiar e contar em qualquer circunstância?
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Minha sogra é uma peça
Daqueles que, se um precisar, os outros entram dando voadora. Que miserável existência teria vivido sem a luz de grandes e veneráveis almas, cuja identidade de gênero não segue o padrão cisnormativo?
Que respeito e acolhimento mereceria receber, se não respeitasse e acolhesse meu semelhante? Quão pobre de espírito eu seria?
Na pregação da semana passada, por exemplo, ao formular postulados sobre a idéia de uma divindade cósmica e absoluta, não antropomórfica nem antropocêntrica nem sobrenatural, lancei mão de um raciocínio que ouvi pela primeira vez justamente em um debate sobre sexualidade.
Não lembro quem proferiu a frase xeque-mate sobre o que é e o que não é natural. “Natural é tudo aquilo que é possível”.
Aplicando o axioma aos meus delírios místicos, projetar uma divindade sobrenatural é negá-la a possibilidade de existência.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Nestes tempos sombrios de negacionismo, não há como ser insensível a qualquer negação à possibilidade da existência alheia.
Creio que avançamos alguns passos adiante do tempo de nossos avós, quando era normal negar ao outro o direito de existir em sua mais plena essência, de amar e ser amado.
Já é um pouco mais fácil que duas almas se encontrem e percorram de mãos dadas este trecho da jornada de evolução espiritual, independentemente do invólucro físico que cada uma carrega.
Há, porém, muitos passos a trilhar neste caminho, seja no campo dos direitos civis seja na transformação de consciências, para que o Orgulho Gay seja o orgulho de uma sociedade livre, justa e igualitária.
LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
Para meu orgulho e crescimento pessoal, venho exercendo a atividade profissional de servidor público no setor da cultura, em um órgão que tem as ações de inclusão e diversidade como política prioritária.
Isso tem proporcionado cada vez mais trocas com artistas e produtores culturais LGBT, o que me enche de orgulho por estar girando a pequena e proletária engrenagem que me cabe no mecanismo sócio-cultural.
Cada pessoa verdadeira, talentosa, genial, trabalhadora, guerreira que vou conhecendo me faz sentir orgulhoso pela possibilidade de aprender mais com a diferença.
LARRÉ – Crônica: Um gato vadio, o mago e Raul Seixas
Talvez o meu jeito de ogro não deixe a todos seguros em um primeiro momento. Os familiares e os amigos LGBT da vida toda, porém, que tanto me dão motivos de orgulho, sabem que este ogro se sente muito mais à vontade entre fadas, elfos, unicórnios e outros seres além da imaginação limitada do que entre a hipocrisia humana da corte de Far Far Away.
Tenho um enorme orgulho de cada um de vocês, habitantes da nossa floresta encantada. Mexeu com um, mexeu comigo!

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