SILNEI SCHARTEN SOARES
Doutor em comunicação e especialista em cinema
Zeitgeist é uma palavra alemã que pode ser traduzida como “espírito do tempo”. São as ideias que circulam em determinado local durante certo período.
É o clima intelectual de uma época, que afeta todos os setores da vida social. Romantismo, Classicismo e Barroco são exemplos de Zeitgeister.
O medo da aniquilação da humanidade por armas nucleares durante a Guerra Fria, também.
Em dimensão global, o espírito do nosso tempo é influenciado pela pandemia do Covid-19.
O vírus domina não apenas corações e mentes, metaforicamente, mas invade o próprio organismo, literalmente. O medo e a apreensão gerados são viscerais.
SILNEI SCHARTEN SOARES Games, mídia e Saudades (Parte IV – final)
Fazendo analogia com outra palavra alemã, a pandemia é um Zeitgeist do tipo Gesamtkunstwerk. Traduzido para o português, o termo significa “Obra de arte total”.
Assim como Zeitgeist, Gesamtkunstwerk também é uma palavra surgida no contexto do Romantismo alemão, e foi usada por Richard Wagner para definir o tipo de ópera que ele criava e produzia.
Para Wagner, um espetáculo operístico deveria conjugar música, teatro, dança, canto, artes visuais e arquitetura de maneira tão orgânica que o efeito gerado sobre a plateia seria o de uma experiência imersiva integral.
A obra de arte total faria um ataque aos sentidos do público, um hiperestímulo sensorial que o preencheria por completo.
SILNEI SCHARTEN SOARES: Games, mídia e Saudades (Parte III)
Assim é a pandemia do Covid-19: uma hiperestimulação sensorial, que nos ocupa integralmente, invadindo corpos, mentes e espíritos.
A mídia e as redes sociais, por onde se disseminam à mancheia fake news e teorias conspiratórias, contribuem para criar a mesma sensação de imersão total pretendida por Richard Wagner em suas óperas.

Mas há mais. Não é somente a pandemia que define o Zeitgeist dos dias que correm. As pragas que nos assolam incluem ainda, no campo político, a ascensão da ultradireita, e, na esfera econômica, as catástrofes ecológicas provocadas pela ação destruidora do capital – uma era que tem sido chamada de Antropoceno, e que pode conduzir à extinção da humanidade.
SILNEI SCHARTEN SOARES: Games, mídia e Saudades (II)
O solo comum a essa sinfonia catastrófica são a precarização e a destruição da vida, em todas as suas formas.
Não surpreende, portanto, que os psicopatas proliferem. Eles são os que se entregam ao apelo sensorial e, perversamente, gozam. Em busca de atenção, afinados ao espírito da época, agem de maneira espetacular.
Alguns, como o vírus, matam.
SILNEI SCHARTEN SOARES: Games, mídia e Saudades (I)
A psicopatia foi definida tanto como transtorno mental quanto como traço de caráter. Seja como for, um psicopata é sempre um antissocial, alguém que não sente empatia nem remorso, e para quem a vida não vale nada.
Covardes, fracos e pusilânimes, os psicopatas não se sentem responsáveis por seus atos, e são especialistas em terceirização da culpa.
Frágeis, inseguros, com baixa autoestima, necessitam da atenção e do olhar do outro para se sentirem amados.
As redes sociais são o seu parque de diversões, sua sala de espelhos. É onde se exibem narcisisticamente e exercem seu fascínio.
Psicopatas são o sintoma e o símbolo de nosso Zeitgeist operístico e pandêmico.
Especialista em cinema passa a colaborar no Paralelo 29
Maestros ensandecidos, regem nossas vidas pelo medo e pelo terror. O pânico fragiliza e atordoa, bloqueia o pensamento e a capacidade de reação.

Como uma Gesamtkunstwerk, os atos espetaculosos dos psicopatas, amplificados pela mídia e pelas redes sociais, nos invadem completamente. Imersos, nos sentimos totalmente indefesos. O
modus operandi dos psicopatas é o mesmo do vírus. Ambos destroem qualquer resistência a sua ação devastadora, arrastando consigo tudo o que possa servir como defesa ou contraponto.
Não é coincidência que essa época tenha feito surgir, no mesmo entorno geográfico, tanto Jair Messias Bolsonaro quanto Lázaro Barbosa de Souza.
O presidente da república e o suspeito de quatro assassinatos, que está causando pânico no entorno de Brasília, são, ambos, filhos do Zeitgeist contemporâneo.
PUJOL: Bem-vindo a Porto Alegre, presidente Bolsonaro!
Operísticos pelas ações extraordinárias que cometem, atraem magneticamente a atenção da mídia, dominando o noticiário e as conversas cotidianas, ocupando nossa atenção de forma integral.
Com a força de um tsunami, arrasam as instituições que deveriam conter-lhes o ímpeto.
Essas, fragilizadas, não conseguem lhes fazer frente: as forças políticas não são capazes de deter a fúria genocida de Bolsonaro, assim como as forças policiais não conseguem frear o instinto assassino de Lázaro, capturando-o.
Ambos conhecem muito bem o terreno em que se movimentam. Impulsionados pela energia da psicopatia, aniquilam vidas como quem compõe uma sinfonia macabra.
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Como um vírus, desrespeitam limites, destroem anteparos de proteção (físicos ou institucionais), invadem corpos, capturam os sentidos, disseminam medo e terror.
Mas o cerco se fecha. Dissonantes, novos sons se fazem ouvir. Já não é possível ignorar o coro dos descontentes. Um contraponto, e o espírito do tempo começa a vibrar em outra frequência.

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