Paralelo 29

FABRÍCIO SILVEIRA: Você pertence ao 1% mais rico da população?

FABRÍCIO SILVEIRA

Professor universitário e pós-doutorando em Comunicação

Você pertence ao 1% mais rico da população? Provavelmente não. Então por que insiste em defender aguerrida e acriticamente a perpetuação de um jogo sócio-político e econômico que o prejudica?

Você sabe me explicar por quê?

Porque isso é o efeito de uma ideologia. E uma ideologia, como sabemos – dito aqui de forma muito breve –, é o conjunto de ideias que regem nossas ações, que moldam nosso comportamento.

É o que nos dá uma visão de mundo. Uma ideologia nos oferece inclusive um padrão emocional e uma cartela de valores (critérios para distinguirmos entre o que é certo e errado, admirável, desejável ou não).

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Mas um detalhe é importante e deve ser destacado: embora seja uma construção histórica, um produto dos homens em sociedade, em razão de seus interesses, de suas disputas de poder, a ideologia tenta se apresentar, sempre – à esquerda e à direita –, como se fosse uma verdade do mundo, um produto da natureza, algo que sempre esteve aí, tão antigo quanto a luz do sol. Ou melhor: a ideologia é tanto mais forte quanto mais parece invisível. É tanto mais presente quanto melhor se oculta.

Assim se explica o discurso da extrema direita hoje no poder. Quando ouvimos Jair Bolsonaro, Luis Carlos Heinze ou outros políticos da mesma via acusarem a presença da ideologia em sala de aula, reivindicando uma suposta “desideologização”, um detox, uma campanha de “limpeza ideológica”, eles estão, em realidade, propondo a substituição de uma ideologia por outra. É simples assim. Tais políticos falam como se eles mesmos não fossem ideologizados ao máximo.

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Em essência, esses discursos – os discursos típicos de Heinze e Bolsonaro, para citarmos os mais visíveis – são verdadeiras bombas ideológicas.

Chegam a ser caricaturas tal o modo grosseiro como dispõem a si mesmos enquanto verdade natural – pois “a verdade vos libertará”, chegam a dizer – e aos outros, tão somente aos outros, como se habitassem um “mundo de enganações”, como se fossem atores ardilosos, capazes de nos inculcar, furtivamente, preceitos perigosos, contrários à natureza das coisas e à ordem cosmológica das estrelas.

A disputa política consiste nisso: consiste em tentar evidenciar e desconstruir a ideologia do outro, ao mesmo tempo em que pretendo proteger ou minimizar as marcas e os efeitos ideológicos de minha própria ideologia. A ideologia, portanto, é fluída, sutil e pervasiva. É a mentira na qual acreditamos.

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É isso que explica o paradoxo que enunciei acima. Se eu não sou um megaempresário, um bilionário que vive de rendas e aplicações, como posso defender, como se fossem meus, genuinamente meus, parâmetros de conduta que não me dizem respeito, que não me beneficiam?

Como posso alardear e romantizar, quando estou em público, um estilo de vida que me impõe, em segredo – quando faço silêncio ou quando estou sozinho –, sofrimento, sensações de cansaço, desamparo, impotência e insegurança, a impressão de um trabalho sem fim e sem sentido, sem os ganhos, os créditos e os reconhecimentos que me são devidos?

Charge de Joacir Xavier, Jô, cartunista e chargista do Paralelo 29

Ideologia, meu caro amigo. Essa é a palavra-chave. Somos fantoches ideológicos. É nisso que penso quando vejo um motorista de Uber ou um ciclista de aplicativo se apresentar como “microempreendedor”.

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É nisso que penso quando vejo o dono da quitanda da esquina defender, com unhas e dentes, o neoliberalismo – esse Deus, essa verdade inquestionável –, comportando-se, para minha surpresa, como se dele dependessem centenas de milhares de empregados, todos com carteira assinada. É nisso que penso quando vejo um pequeno proprietário rural – ou o dono de um sítio nos arredores de Porto Alegre – se tornar agressivo ao ouvir apenas falar em reforma agrária.

É nisso que penso quando vejo o garçom de um restaurante, no centro de Santa Maria, sem curso superior, tendo um salário mínimo e meio como rendimentos mensais, defender, junto com Bolsonaro, a privatização de tudo, o “fim da mamata” no serviço público e a morte irrestrita dos comunistas infiltrados nas universidades federais.

Eles não sabem do que estão falando, sou levado a concluir. Junto com quase sessenta milhões de brasileiros, todos eles se acham pertencentes ao 1% mais rico da população. Seria isso? Talvez. O leitor que julgue.

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