JULIO PUJOL
Professor de História e consultor político
Vivi, na semana que passou, uma experiência que conhecia de ouvir falar, mas que para mim até então era inédita.
Estava organizando uma aula remota, como uma ‘live’, aberta, com o ex-prefeito de Porto Alegre, José Fortunati. Estávamos debatendo e avaliando o cenário político atual, e prospectando possibilidades para 2022.
Passados uns 20 a 30 minutos do início, já com um bom público, sofremos uma invasão ‘hacker’. Por sorte, bem comportada, pois tenho notícias de invasões bem mais impróprias.
PUJOL: As grandes questões da humanidade. E do Brasil
A sensação é aquela de quando você é guri e está jogando ‘bolita” (era assim que se falava há uns quarenta e poucos anos), disputando com os amigos, seguindo as regras, concentrado, e de repente passava um guri maior, espalhava todo o jogo, roubava umas bolitas e saia correndo. A gente ficava se olhando sem saber muito o que fazer. Foi assim no ataque hacker.
O ataque, neste caso, tinha um único objetivo, ao que se sabe, de atrapalhar e encerrar a reunião. Vozes, música, gritos, algumas poucas imagens, e o controle da situação.
PUJOL: Bem-vindo a Porto Alegre, presidente Bolsonaro!
Eu, anfitrião da aula, com notebook e celular conectados, não conseguia silenciar aquelas vozes, não conseguia me fazer ouvir para dar alguma orientação. Foram alguns minutos tumultuados.
Resolvido o assunto, vou adiante.

A questão filosófico-sociológica que se coloca é: que mundo está se iniciando neste nosso tempo existencial? Quem estará no controle? Quais serão as regras? Temos que refletir juntos.
Cada um de nós está vivendo uma experiência particular neste período de pandemia. Falo especificamente no aspecto das relações pelo mundo virtual. Da experiência de cada um nascerá a experiência sociológica do tempo. Qual será ela?
Vivemos uma transição para algo que não sabemos, porque não planejamos e, de certa forma, não controlamos.
Aqueles um pouco mais velhos ainda tem a experiência dos pés na terra, como era no passado; do manuscrito, do livro, do caminhar; do tropeçar. Isso, bem ou mal, dá um referencial de apoio que auxilia no entendimento do tempo. Outros já nasceram dentro dele.
PUJOL: Pedagogia política
Que é uma transição, não tenho dúvida. As coisas que eram ontem, hoje já não são mais. E as coisas que serão, certamente não são o que são hoje. Surgirá uma síntese. Surgirão bons leitores do tempo.
Ou já estão surgindo. Surgirão os que conseguirão ver e prospectar os novos caminhos, a nova realidade que se instala.
Entramos na pandemia acreditando que o trabalho, e as aulas, etc. remotos eram uma possibilidade brilhante que havia se imposto definitivamente.
O tempo foi passando e a gente foi cansando. As crianças não aguentam mais ver os coleguinhas por uma tela. Quanto mais elas se conectam na tela, mais elas se desconectam de si mesmas. É uma tragédia.
PUJOL: Despolarizados
Os games são uma tragédia; a ‘segunda vida’, o avatar, o virtual, são um enorme perigo. Porque há uma partição, ou seja, se está ali, mas não se está. A brisa na janela, real, não enxergamos, embora teime em querer entrar.

Ser humano é ser terra (húmus da terra, a essência da terra). E ser humano precisa do toque de outro humano. Da interação, do desafio, da disputa, do abraço, do riso e do brinquedo.
‘À Cezar o que é de Cezar e à Deus o que é de Deus’.
No momento do remoto, remoto, ou seja, o trabalho remoto é um fato. E deve ter sua medida e regulação.
No tempo do híbrido, híbrido, ou seja, é uma forma nova que nasce, uma possibilidade que pode nos facilitar a vida.
JULIO PUJOL: O que é uma Alta Política?
No tempo do presencial, presencial. O homem é presença. O homem é encontro. É toque. É vento no rosto. É garoa. É bergamota ao sol, poeira de estrada, dança. O homem é a si, e é o outro homem. Humus.
É folha que cai e flor que brota. É a cuia quente, o gol de falta, o barulho do motor e o silêncio do templo.
Reflitamos amigos… reflitamos. Somos todos responsáveis construtores do nosso tempo.

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