FABRÍCIO SILVEIRA
Professor universitário e pós doutorando em Comunicação
Os rumores em torno da CPI da Covid e algumas evidências levantadas no âmbito da investigação nos permitem supor que estamos diante da maior e mais cruel engrenagem de corrupção da história do país?
Será mesmo possível?
Apesar dos esforços contemporizadores da “tropa de choque” do bloco governista – rebatizada pela revista Crusoé como “tropa do cheque” –, o que vemos se desenhar, aos poucos, é um monstro híbrido, em parte nucleado pela “banda podre” da polícia militar e das forças armadas, nas palavras de Omar Aziz, em parte abençoado pelos “vendilhões do Templo”, autodenominados pastores, exploradores da fé alheia.
FABRÍCIO SILVEIRA: Falando sozinho
Registre-se que essa fórmula foi incubada, durante décadas, no setor menos republicano do ambiente político do Rio de Janeiro, onde a família Bolsonaro fez escola.
Estamos entre a cruz e a espada, literalmente – sob os braços abertos do Cristo Redentor.
Acompanhamos o noticiário e os nomes dos envolvidos vão se sucedendo. Organizam-se em dois grandes grupos: de menções vagas às milícias cariocas chegamos a um cabo vendedor de vacinas, lotado na cidade de Alfenas, no estado de Minas Gerais, passamos pelo general Eduardo Pazzuelo e pelo coronel da reserva Élcio Franco, no interior profundo do Ministério da Saúde.
FABRÍCIO SILVEIRA: Você pertence ao 1% mais rico da população?
Esses atores compõem uma rede de suspeitos, cujas ações precisam, sem dúvida, ser esclarecidas.
De outro lado, a banda “terrivelmente evangélica”, no interior da qual desponta agora o reverendo Amilton Gomes de Paula, ligado à Igreja Batista e à Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (SENAH).
Formam-se assim sistemas de pressão, cooperação e pactuação indireta, com ótimo senso de oportunidade, nas margens da lei e dos controles burocráticos.

Na fachada, como temos visto, há discursos políticos, hipocrisia moral e resguardos institucionais, as famosas prerrogativas ou garantias associadas aos cargos, os foros privilegiados.
FABRÍCIO SILVEIRA: Bolsonaro genocida?
Caso se confirmem – e é bom salientar que nos movemos no plano das suspeitas, de uma investigação pública ainda em andamento –, tais pistas podem nos conduzir ao maior desastre da vida republicana do país.
Nenhum governo anterior terá sido tão danoso, com impactos tão permanentes e tão negativos sobre a vida dos brasileiros.
O que agrava o cenário todo é a quantidade de mortes se sucedendo – mortes que seriam evitáveis, ainda sem perspectiva de parar.
Soma-se a isso a ação deliberada dos gestores públicos, motivada, de um lado, pela incompetência, o desapreço à vida dos brasileiros.
D outro lado, como apontam as evidências coletadas até aqui, pela expectativa criminosa de obtenção de benefícios pecuniários astronômicos, na casa dos milhões de dólares.
FABRÍCIO SILVEIRA: Carta aos historiadores de 2121
O que pensávamos se tratar de negacionismo anticientificista, embrutecimento vil e cegueira ideológica pode vir a se confirmar como achaque deslavado, mentalidade de gangue e – ainda pior do que tudo isso, como se já não fosse pouco – o declínio consumado, os últimos estertores da ordem constitucional e da democracia presidencialista no Brasil.

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