LUDWIG LARRÉ
Jornalista
O ano era 1982, auge dos festivais de música nativista no Rio Grande do Sul. No Alegrete, ocorria a 1ª edição da Nova Ronda da Canção Nativa. Creio que fosse um mês de maio, se não me engano, poucos dias depois da Tertúlia Nativista de Santa Maria. Um frio de rachar o pala!
Depois de assistir a primeira eliminatória do festival, em um ginásio que mais parecia uma câmara frigorífica, segui para o acampamento, lá no Parque de Exposições Lauro Dornelles, se não me falha a memória.
Até madrugada alta, zanzei pela copa e por entre as barracas, cumprindo minha incumbência da época nos certames nativistas, que era zelar pelo meu querido e saudoso César Passarinho.
Os músicos de Uruguaiana confiavam a mim – um piá de 18 anos incompletos – a missão de ser uma espécie de guarda-costas e concierge do Grande Pássaro. Tínhamos uma amizade tão bonita e sincera, que essa responsabilidade me era motivo de grande prazer e orgulho.
Já quase amanhecia quando consegui encaminhar o Passarinho ao hotel em que estava hospedado, cercado de garantias de que meu ídolo e amigo do peito não tomaria outro rumo que não o combinado.
A geada já se formara e o Minuano cortava como uma carneadeira, emprestando um ar de tundra nórdica àquelas coxilhas da fronteira oeste. La pucha! Nunca passei tanto frio na minha reputa vida!
Nem meu bichará de lã crua era capaz de amenizar a friaca. E olha que eu começo a reclamar de frio quando os pinguins já estão encarangados!
LUDWIG LARRÉ: Os adoradores do mal assustam mais do que o mau em si
Meu finado primo Marcos Vinícius – o Maio –, com quem eu deveria retornar à cidade e me recolher à casa dos tios, já tinha se mandado a la cria. O falecido Alexandre Chavão, que naquela época ainda tinha as duas pernas, erguera a cola junto. Restou-me buscar abrigo sobre uns pelegos, em um bivaque de lona, onde tiritavam outros borrachos da turma do Maio.
O Xóia – outro já finado – dormia ao relento, devidamente mamado, em um buraco aberto para um fogo de chão que não fora usado.
As abas do poncho e as pernas para fora da cova, os pés quase dentro do outro fogo aceso, onde três tições ardiam sob uma trempe vazia.
Eu ainda não conseguira degelar e pregar os olhos, quando já surgiam as primeiras claridades da manhã. Eis que um pelotudo, com uma moto dessas barulhentas, de baixa cilindrada e com o boró aberto, resolve tocar a alvorada acelerando em idas e vindas pelo corredor entre as barracas.
Era o diabo nas taquareiras para quem, como eu, tinha esperança de dormir com o frio, aos poucos, sendo amenizado pelos tímidos raios do sol que vinha saindo. O desgraçado foi e voltou umas três ou quatro vezes, esticando todas as marchas da motinho naquele barulho infernal.
Ouviu-se, então, um estrondoso plum-cataplum-trec-telectrec-ploft-blum de caco da moto se espatifando na geada grossa.
Tirei a cara para fora do bivaque, e o quadro, de lá para cá, era este: o piloto nem se via onde tinha ido parar. A moto, ou que sobrara dela, jazia embolada contra um repecho.
LUDWIG LARRÉ: Deus cosmomórfico
Uns vinte metros para cá, um Nêgo Véio enrodilhava o laço. Um pouco atrás dele e à minha frente, o finado Xóia se levantara de susto, com as abas do poncho congeladas de geada e abertas, igual às asas de um morcego, e verificava o que tinha sobrado das solas das botas, derretidas pelas horas passadas junto ao braseiro.
O Nêgo Véio, ainda recolhendo o laço, vira para o finado Xóia e para mim – únicas testemunhas daquele espetáculo do amanhecer –, aponta com o beiço para o que sobrou da moto e explica, meio que se justificando:
– Tive que pealar porque o guidão era mocho.

No Comment! Be the first one.