SABRINA SIQUEIRA – Jornalista e podcaster do Literatura Oral
Nas duas vezes em que visitei Roma, romanos demonstraram brutalidade. Na primeira visita, má vontade e estupidez. Na segunda, a falta de educação evoluiu para uma multa injusta.
Se todos os caminhos levam a Roma, não pegue nenhum deles! Dentre as situações desconfortáveis de quando fui pela primeira vez, sozinha, há mais de dez anos, estão atendentes estúpidos, tanto homens quanto mulheres, em diversos estabelecimentos, como cafés, pizzarias e uma lan house (que naquele tempo o celular não tinha internet).
Teve o garçom que me expulsou de um restaurante, onde eu havia comprado uma garrafa d’água e, com a água comprada dentro do restaurante, sentei do lado de fora, em uma das mesas colocadas na calçada, costume no verão italiano. Abri um mapa para me localizar. Então percebi que uma gritaria em italiano ficava mais alta e próxima a mim.

Era um funcionário do restaurante me enxotando furiosamente. Perguntei a razão e ainda argumentei (em Inglês) que comprei ali e que poderia comprar mais, se esse era o preço para abrir um mapa em uma das mesas vazias.
SABRINA SIQUEIRA: A vida tem que ser mais que pagar boletos
O ogro foi pegando no encosto da cadeira em que eu estava para me derrubar de imediato. Todos os demais comensais olhando.
Nunca entendi o motivo da expulsão, mas suspeito que seja aversão a uma mulher desacompanhada de uma figura masculina. O que, na Roma machista e misógina, é quase crime.
Segurei as lágrimas que ser expulsa de um lugar provoca. No instante do ocorrido, ainda olhei os turistas sentados para ver se a minha calça jeans, tênis all star e camiseta destoavam muito das roupas dos demais, o que de forma nenhuma justificaria a truculência. E não era o caso, tanto por ser verão e todos ali estarem mais ou menos como eu, quanto por o restaurante ser uma espelunca no entorno do Coliseu.
Depois de horas na fila do Vaticano, fui barrada por não estar com os braços cobertos. Claro que os turistas devem estar informados das regras dos locais que pretendem visitar e, apesar de não religiosa, eu poderia saber que a igreja católica apostólica romana considera braços femininos ultrajantes, ainda mais em um dia com temperaturas de mais de 30ºC, como foi aquele. Entendi porque tantos vendedores ambulantes, ao longo da fila, ofereciam echarpes.

As desavisadas em roupas de verão usavam para se embrulhar e poder visitar a igreja. Como estava há alguns meses na Irlanda, onde chove um dia sim e outro também, tinha uma capa de chuva, daquelas dobráveis, dentro da bolsa.
E os fiscalizadores da moral da Basílica de São Pedro concordaram que uma capa preta, com capuz, era decente o suficiente. Sem querer, fiz uma sauna.
SABRINA SIQUEIRA: Chatear e punir
Não vá a Roma. Eu sei que eles têm o Vaticano, a Fontana de Trevi, o Coliseu, a Piazza Navona e a Piazza di Spagna, o Panteão e a Praça do Povo. Mas o fato é que os romanos também sabem e são orgulhosos e arrogantes porque, façam o que fizerem, os turistas nunca vão deixar de visitar séculos de história reunidos em uma capital europeia.
Assim, não se importam em tratar bem, garantir que o visitante saia da cidade com uma boa impressão. Para conhecer as fontes, sugiro Frederico Fellini e seu La dolce vita. Para as ruas de Trastevere, Woody Allen e seu Para Roma com Amor. Para a ilusão da boa alma italiana, Roberto Benigni e Ennio Morricone.
Não vá, assista a Roma a salvo das caras emburradas dos comerciantes, que nem tentam te ajudar a se desenrolar do emaranhado de ruelas iguais e achar o caminho.

Não vá a Roma. As ruas são sujas, com lixo, excrementos muito grandes para serem de animais e pedras soltas nas calçadas, só esperando uma chuva para se transformarem em armadilhas e explodirem água fedida no turista cheirosinho para um dia de passeio.
Aliás, caminhar em Roma é um desafio. Porque em Roma não se atravessa uma rua, mas sobrevive-se bravamente a um trânsito em que semáforo é peça de decoração.
SABRINA SIQUEIRA: Azul ou preta, a cor define o destino da borboleta
Os romanos acham que as luzes verde e vermelha dos sinais são alusões à bandeira italiana e (des)organizam o tráfego com gritos, buzinaços e braços alçados das janelas dos carros. O pedestre, em Roma, é antes de tudo um sobrevivente.
E se acha que vai desfrutar de boa comida italiana em Roma, deixa eu te contar que Roma não é um lugar, mas uma ideia. Uma ideia de árvores Pino Domestico emoldurando ruínas, prédios em tons terrosos e janelas quadradas, história, mesa farta, mamas e nonas gritonas, mas amorosas e habilitadas na arte de fazer macarrão com poucos ingredientes, para driblar as vicissitudes da miséria.
É uma ideia de praças com fontes talhadas em mármore, que jorram a força de uma cidade que se fez império. Uma ideia que o Brasil desenvolveu e aprimorou.
Em Roma, vão te servir risoto com arroz cru, limonada sofrível e uma pizza que não foi apresentada ao recheio. Se quer boa comida italiana, fique por aqui, na quarta colônia de imigração melhorada italiana, ou vá para São Paulo.
A minha segunda vez na cidade foi há poucos anos, para mostrar Roma a minha mãe. E achei que na companhia de uma senhora, incidentes causados por os italianos não gostarem do fato de uma mulher viajando sozinha diminuiriam.
Nossa primeira visita foi ao Vaticano. Eu normalmente caminho bastante para conhecer as cidades, mas devido aos protestos da mãe, pegamos um ônibus, depois de comprar os tickets em uma banca de revistas, com uma senhora chateadíssima por eu falar em Inglês.
SABRINA SIQUEIRA: Uma crônica de Halloween
Minha intenção era perguntar dentro do veículo se devia entregar os tickets, como uma passagem, ou como deveria proceder. Mas era o primeiro ponto da linha, e quando o motorista finalmente chegou, deu a partida imediatamente e não vi problema em perguntar quando fôssemos descer. Afinal, havia pago pelos tickets, que estavam na minha mão, e estava tudo certo. Só que não.

Quando o ônibus chega na parada do Vaticano, um grupo de policiais entra e muitos outros ficam na calçada. A presença deles impede que eu chegue perto do motorista para saber se devo entregar os tickets. Vendo que estou com os bilhetes na mão, tentando passar, um policial esboça um sorriso e fala algo aos demais, que se alvoroçam.
Encontraram a vítima do dia. Pergunto a ele se devo entregar os tickets e escuto impropérios e gritos em italiano. Respondo que não entendo, mas estou entendendo perfeitamente que estão indignados comigo.
Acho que deve ser uma brincadeira, demonstração de humor italiano com as turistas, tentativa de ser agradáveis, de um jeito bem tosco, mas vá lá! Pergunto se há algo errado e acho que nem sou ouvida, porque agora muitos policiais estão me olhando, gesticulando e gritando a valer. O que viu os tickets nos manda sair do ônibus. Uma vez fora do veículo, exige nossos passaportes, sem explicar o que estava acontecendo.
Entrego os passaportes, certa de que não infringi nenhuma lei. E aí sou informada, com muita má vontade, que eu não “carimbei” os tickets, conforme aviso no verso das passagens, coisa que eu não li e não vi ninguém fazendo enquanto estava no ônibus. Explico que sou turista (caso os passaportes brasileiros não fossem anúncio suficiente), e escuto mais gritos e indignações do grupo de policiais que estavam ali propositalmente esperando bobas para serem multadas, já que é uma parada próxima ao Vaticano.
SABRINA SIQUEIRA: Procuro pela Neiva
Não adianta nada do que eu digo e um policial já está com uma máquina aguardando o meu cartão para pagar a multa, se quiser ter os passaportes de volta. Aos gritos, uma policial finalmente explica o que está acontecendo em Inglês, de forma bastante irônica, dizendo que eu não li os tickets porque não quis, já que está escrito “ticket must be stamped” no idioma que conheço, e não em italiano.

Eu devo ser uma turista estúpida, para preferir olhar as belezas da cidade de Marco Aurélio, ao invés de escanear as letras miúdas do verso de uma passagem de ônibus intramunicipal, pela qual paguei € 1,50. Com certeza, por ter escolhido ir a Roma uma segunda vez, muito inteligente não sou. € 55,00 de multa para cada uma de nós por não ter perfurado a passagem, dentro do ônibus.
Dando de ombros, a policial debochada acrescenta que se eu não quiser pagar ali, os passaportes ficam retidos e a multa aumenta quando for retirá-los. Fossem bem-intencionados, teriam me informado enquanto estávamos no veículo. Lembrando que eu só saí sem perguntar porque fomos obrigadas, aos berros.

SABRINA SIQUEIRA: Peladas na praia
Retêm passaportes de turistas por um ticket não carimbado, sendo que ainda dentro do ônibus, o stamp poderia ter sido feito. Mas a autoridade capturou as passagens da minha mão e mandou que saíssemos do veículo imediatamente. Ou seja, uma arapuca dos carcamanos para extorquir dinheiro de mulheres viajando sozinhas. Porque duvido que fizessem tamanho alarido se fosse com um homem.
O valor desfalcado da gente deixou de ir para restaurantes, museus, alguma compra, para o turismo enfim. Quando uma cidade não trata bem seus turistas, quem perde é a cidade, porque os turistas encontram outros destinos.

Os carabinieri saem rindo. Se acham espertos, mas não são. Deviam saber que alguma dessas turistas pode escrever sobre uma ideia de boicote a Roma, porque mulheres viajando sozinhas para lá são desrespeitadas. Ideias podem viralizar, e impérios podem ruir.
Por essa e por outras, não vá a Roma. Mas se for e precisar usar transporte público, mergulhe o ticket em uma caixa amarela dentro do ônibus assim que entrar! E leve dinheiro extra para as extorsões policiais.
Dias antes da nossa partida para a Itália, uma amiga recém chegada de Roma nos alertou sobre os batedores de carteira, que estavam impossíveis e causaram um problemão pegando a bolsa de uma pessoa do grupo dela.
Passeios foram cancelados, para resolver o furto do passaporte. Isso os policiais gritões, com suas máquinas de cartão, não observam! Quer dizer, fomos para a Itália sabendo que um eventual furto poderia acontecer, eu só não previa que o ladrão estaria usando uniforme.
Roma ainda é a selvagem que joga os filhos nascidos deformados aos leões famintos, em espetáculos públicos. Porque ainda seleciona os corpos que podem circular, os que têm direito a sentar em um restaurante com mesas na calçada e os que serão abusados para deleite dos poderosos.
SABRINA SIQUEIRA: Um capítulo da luta pelo voto feminino no Brasil
Quando entramos na Basílica de São Pedro, eu já não segurava as lágrimas gordas que corriam no meu rosto gelado, não tanto pelo frio de janeiro como pelo susto, pela truculência, armadilha, humilhação e gritos desnecessários. Outros turistas na igreja devem ter adivinhado devoção, mas era ódio.

Ou seja, que as minhas duas visitas ao Vaticano foram assim: primeira, embrulhada em uma capa de chuva irlandesa quente e suando em bicas; segunda, vermelha de raiva e em prantos. Não voltarei!
Esta crônica custou 110 Euros. Em tempo: é horrível ser feita de boba e desrespeitada fora do país, mas sem dúvida deve ser muito pior o desrespeito das autoridades que deveriam zelar pela paz do povo em seu próprio lugar.
Estou me referindo a policiais e situações em que pessoas são paradas, revistadas, humilhadas em solo brasileiro, por compatriotas falando a mesma língua, e que escolhem as vítimas pela cor da pele.
As minhas decepções em Roma servem para escrever crônicas, mas o abuso de autoridade a que pessoas pobres são submetidas indevidamente quando abordadas e agredidas por policiais, no Brasil, é inaceitável.

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