SABRINA SIQUEIRA – Jornalista e podcaster do Literatura Oral
James Joyce gostava de datas, era afeito a significados nos números. Gostava de lançar seus livros no aniversário, por exemplo. O maior deles, Ulysses, coincidiu com os 40 anos, em 2 de fevereiro de 1922, e está completando 100 anos.
Apesar de ser um calhamaço, o tempo narrativo de Ulisses concentra-se em um único dia, 16 de junho de 1904. No decurso desse dia, um cidadão comum chamado Leopold pensa na relação com a esposa, Molly, anda pela cidade e encontra um jovem amigo, Stephen Dedalus.
Há alguns anos, o universo literário comemora o Bloomsday nessa data, em homenagem ao livro mais famoso do escritor irlandês James Joyce. Esse dia de 1094 foi especial para JJ, porque foi o primeiro encontro sexual com a futura esposa, Nora Barnacle, a quem ele dedica essa obra.
Joyce começa a escrever Ulisses em 1914, no clima de estarrecimento pela Primeira Guerra Mundial. É, portanto, um livro gestado enquanto o mundo está fragmentado e contém esse espírito de descompasso: é dividido em 18 episódios, ou capítulos, de estilos diferentes.

Centro James Joyce, em Dublin/Foto: Sabrina Siqueira, Arquivo Pessoal
Neles, o escritor aproveita o nome e a essência de 18 dos 24 cantos da Odisséia, de Homero. Na história épica grega, o herói Ulisses, ou Odisseu, dependendo da tradução, depois de ter participado da Guerra de Troia por dez anos, inicia uma jornada de retorno ao lar, Ítaca, onde é rei e tem a sua espera a esposa fiel, Penélope, e o filho saudoso, Têlemaco.
O retorno demora mais uma década, na qual o destemido e astuto Ulisses desbrava mares, sobrevive a encantamentos, engana gigantes com truques de linguística e seduz deusas.
O clássico de Joyce pode ser lido como uma paródia dessa epopeia, sendo Leopold, Stephen e Molly os correspondentes de Ulisses/ Odisseu, Telêmaco e Penélope.
Mas o romance de Joyce acontece no século XX e Leopold é nada heroico ou disposto a desbravar os perigos do mundo. Antes, está comprometido com as tarefas de casa e angustiado. E sua esposa, Molly, não é nem um pouco fiel como Penélope, que distraia os pretendentes desfazendo à noite o bordado que tecera de dia.
Molly nunca receberia o epíteto de “recatada e do lar”, já que é sapeca e nada caseira. Ela trabalha como artista, canta na noite, aceita o flerte de amantes.

Hotel na região boêmia do Temple Bar, centro de Dublin/Foto: Sabrina Siqueira, Arquivo Pessoal
Outro clássico literário que influencia a escrita de Ulisses é Os Contos da Cantuária, do inglês Geoffrey Chaucer. Dessa obra de 1476, Joyce aproveita a técnica de escrever cada conto – ou capítulo – em um estilo diferente, o que também pode ser atribuído à fragmentação que o autor via no mundo em guerra.
Os estilos variados sugerem as diferentes formas como uma mesma história pode ser contada. Especialmente um dos contos de Chaucer é influência na composição do casal Molly e Leopold. Trata-se de “A mulher de Bath”, em que a protagonista, Alisson, é uma senhora que já casou cinco vezes, diz ter a fórmula da perfeição conjugal, que seria casar com idosos ricos, e é uma entusiasta da ideia de que o homem devia servir a mulher.
Direto do medievo, Chaucer dá vida àquela que pode ser considerada a primeira personagem feminista da literatura em Língua Inglesa, e ela reverbera em Ulisses, que ficaria conhecido como o avatar da pós-modernidade.

Castelo de Dublin – a cidade natal de James Joyce é cenário de Ulisses/Foto: Sabrina Siqueira, Arquivo Pessoal
O comportamento liberal de Alisson com o corpo e com a sexualidade ecoa em Molly Bloom. Para Chaucer, o tempo em que escreve os contos era o prenúncio do final do feudalismo; para Joyce, o tempo de escrita encontraria a modernidade que desabrocharia no pós-guerra.
E para o bloom ou florescer da modernidade, Joyce pensou um casal com papeis sociais invertidos. Leopold é um homem que acorda antes para comprar o que precisa para o desjejum, cozinha e serve a esposa na cama, enquanto Molly trabalha fora e limpa os dedos engordurados nos lençóis, quando o usual eram mulheres que serviam o café e limpavam a casa para seus maridos. Lençóis esses que Leopold troca quando arruma a cama, mesmo achando que Molly encontrará logo com o amante, e depois de fazer as tarefas domésticas fica perambulando pela Dublin da imaginação de um Joyce há muitos anos autoexilado em outras cidades europeias por considerar a capital irlandesa paralisada e impeditiva da criação artística livre.
Ulisses enfrentou deuses e tormentas para retornar a Ítaca, mas Leopold não tem nenhuma intenção de se pôr em risco antes de retornar a casa, porque o herói moderno não precisa assumir as proporções imensas do herói épico.

Hotel na região boêmia do Temple Bar, centro de Dublin/Foto: Sabrina Siqueira, Arquivo Pessoal
O protagonista de Joyce é um homem com dúvidas e melancolias, que já enterrou o filho aos onze dias de vida e tem uma filha de 15 anos que é emancipada. É um sujeito que peida e que tem uma relação distanciada com a esposa de sangue quente, com quem dorme invertido na cama como método anticoncepcional.
Essa técnica de dormirem de ponta-cabeça também seria usada por Joyce e Nora, a esposa não refinada, vinda do extremo oeste da Irlanda para trabalhar como camareira em Dublin e que no dia 16 de junho de 1904 “fez dele um homem”, nas palavras do autor.
Nora é a primeira namorada e companheira da vida de Joyce, com quem ele teve dois filhos e a quem deu a mão para ter a coragem que a personagem Eveline, de um dos seus contos mais celebrados, não teve.
A coragem de zarpar para longe da Irlanda e construir uma vida nova, livre da estagnação que o escritor acreditava pairar sobre a ilha. Livre mesmo? A Irlanda esteve em cada um dos textos de Joyce, foi seu tema e seu grande personagem, e ele teria declarado que sempre escrevia sobre Dublin, porque chegar ao coração de sua capital era chegar ao coração de todas as cidades do mundo inteiro, já que no particular está contido o universal.

Centro James Joyce, em Dublin, capital da Irlanda/Foto: Sabrina Siqueira, Arquivo Pessoal
Joyce dizia ser um homem feminino, e Ulisses exalta as mulheres. Bloom é empático com uma grávida ao ponto de ter fantasias de que está, ele próprio, grávido. Preocupa-se com a filha, tem saudades do filho e reflete sobre a centralidade da mulher no processo de dar à luz.
Nesse aspecto, Molly lembra de como, algumas vezes, amamentou simultaneamente a filha e o marido. Por cenas como essa, o livro foi considerado obsceno, mas Joyce estava falando do protagonismo feminino, do papel que mulheres assumem como mantenedoras de laços e provedoras do lar. Enquanto os homens, por vezes, assumem postura infantil.
Se você não quer ou não pode dedicar tempo para ler as quase 900 páginas de Ulisses, recomendo que leia ao menos o último capítulo, “Penélope”, com o fluxo de consciência de Molly, personagem que está nos pensamentos de Leopold ao longo do livro inteiro, mas que aparece de fato somente no final, enquanto está deitada ao lado dele e, com monólogo interior, revisita a infância, os admiradores, a carreira, a sugestão de uma relação com uma amiga na adolescência, tem distrações sonoras e fisiológicas que interceptam essas lembranças, encadeadas com outras tantas informações, em um jorro de texto que flui como fluem nossos próprios pensamentos, concatenando-se e atropelando-se, ainda que desconexos entre si.

A voz da mulher moderna e livre que é Molly encerra o livro nomeado como herói grego, contando ao leitor que foi ela quem fez o marido a pedir em casamento, ao que ela responde “sim”!
Ulisses termina com um repetido e estrondoso “sim”. É um sim à possibilidade de um mundo novo, surgido dos escombros de uma guerra mundial, que permeou toda a escrita e terminou quatro anos antes do lançamento. Um sim a um pedido arquitetado pela mulher convidada a responder que sim.
Joyce recheou Ulisses de intertextos e decifrá-los colabora para o entendimento da obra. Isso se desdobra em duas possibilidades: há quem ache o livro difícil e quem não se canse de fazer novas leituras, porque sempre encontra outras camadas de significados.
Além da importância das duas obras literárias que foram as influências principais, a Odisséia e Os contos da Cantuária, também salpicou lendas, mitos e canções de tradição irlandesa.
Todos esses assuntos abordados por Joyce fazem de sua obra-prima ao mesmo tempo um tributo à Irlanda e inovadora ao tratar de temas tabu, além de um tanto jocosa e cômica, fazendo jus ao humor irlandês, calejado em rir dos próprios infortúnios.
Escolher encerrar Ulisses com a voz feminina e com um sim é significativo e explica um pouco de porque esse clássico centenário continua dando o que falar.

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