SABRINA SIQUEIRA – Jornalista e podcaster do Literatura Oral
Em 13 de fevereiro a Semana de Arte Moderna (SAM) completou cem anos. Quando aconteceu, uma de suas propostas era redimensionar o engessamento dos festejos de comemoração do centenário da Independência do Brasil, que aconteceriam em setembro. Principalmente, foi uma reação ao academicismo e à formalidade nas artes.
Negava o Parnasianismo, estética muito apegada à rigidez formal e que durou até meados de 1890. Eram contrários, por exemplo, a uma teoria que vigorava na época, conhecida como darwinismo racial, de que existiram diferentes raças humanas, em que algumas são inferiores às outras.
Por essas características, a SAM indicava que seria um evento inclusivo. Mas durante aquela semana de 1922, nas três sessões de leituras e exposições, não houve exatamente a inclusão projetada.
Para começar, ficou muito centrada em São Paulo, e expoentes do modernismo de outras partes do país não tiveram o mesmo destaque de seus idealizadores. Além disso, aconteceu no Theatro Municipal de São Paulo, local de espetáculos caros e frequentado pelos ricos barões do café.

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Os organizadores foram artistas de diferentes áreas, como artes plásticas, música e literatura, principalmente os escritores Oswald de Andrade e Mário de Andrade, que, apesar do sobrenome, não eram parentes e possuíam personalidades bem diferentes.
Foram influenciados pelas vanguardas europeias do pós-primeira guerra mundial, dentre as quais o Futurismo, movimento cujo manifesto de 1909, escrito pelo italiano Filipo Tommaso Marinetti, enaltecia o protagonismo da tecnologia, do dinamismo, do maquinário e da velocidade.
A proposta desses jovens era trazer para o Brasil uma nova visão das artes, sendo que muitos deles haviam viajado, morado fora do país. Só que ficou concentrado em uma elite intelectual branca e majoritariamente masculina.
Lima Barreto era um escritor modernista consolidado, tendo publicado suas maiores obras. Diferente dos modernistas paulistanos, morava no Rio de Janeiro, descendia de escravizados, era preto, tinha querelas com colegas escritores e jornalistas, opiniões fortes, era pobre e tinha quase o dobro da idade de alguns dos outros participantes. O Rio diferia também de São Paulo por ser a capital com cultura urbana e popular vibrante. Já a cidade que acabou sendo sede da SAM era detentora de capital advindo da cafeicultura, mas ainda tradicional e engessada na perspectiva artística.
Barreto foi convidado para fazer a resenha do evento, na Revista Careta. Mas poucos dias depois discordaria do que apregoava o grupo, principalmente pelo louvor deles às ideias de Marinetti, que viria a ser defensor do fascismo.
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Conhecedor de uma outra realidade brasileira, despida do glamour que os bem-intencionados e ricos herdeiros queriam alçar à categoria de luxo, Barreto tinha uma velocidade própria, era um inconformista e acabou por ter sua imagem desconectada dos modernistas paulistanos.

Nos dias do evento, teria estado internado mais uma vez pelos problemas com a bebida, seu refúgio para as frustrações rotineiras. Talvez ele tivesse criado muita expectativa sobre os ventos de mudança que os outros diziam querer ver soprar com a SAM, e talvez o grupo não estivesse pronto para a intensidade de mudança social que um entendedor das mazelas brasileiras sonhava.
O descolamento de Barreto do grupo que propunha uma ruptura com as estruturas arcaicas no campo das artes não aconteceu pela ausência do escritor das três noites em que o evento ocupou o Theatro Municipal de São Paulo, mas sim por oposição de valores. Até porque Tarsila do Amaral, pintora do quadro Abaporu, também não participou, porque estava em Paris, mas tem o nome vinculado ao grupo.
O que aconteceu com Lima pode também ter sido uma mostra de que o grupo não estava tão aberto assim à inclusão, não o suficiente para abraçar um escritor militante, pobre, preto e sensível à dor do preconceito. Ele talvez entendesse o Brasil melhor que os demais modernos proponentes de mudanças.
Afinal, Lima tinha muito de sua personagem Isaías Caminha, que chora ao contar de uma noite preso injustamente, por acusação de roubo. E chora não pela humilhação e injustiça, mas por perceber que as injúrias raciais já não lhe provocavam lágrimas como antes, como na época em que foi preso, porque criou uma carapaça, teve a sua natureza de bondade aniquilada e substituída pela sisudez da autodefesa. Não combinaram, Barreto e os meninos ricos querendo tornar o povo brasileiro entendedor de sua própria cultura. Distanciaram-se.

Talvez os Andrade, as pintoras e todos os outros devessem ter falado diretamente ao povo, e a tentativa de catequizar a elite cafeeira só os tenha distanciado do povo que pretendiam exaltar. Tivesse acontecido em praça pública, democraticamente, ao invés de em um teatro pomposo, tivesse sido um movimento itinerante pelo Brasil, a SAM poderia ter alcançado muito mais já em sua época e talvez não amargasse vaias e críticas.
Mas há quem diga que se tivesse como endereço uma livraria, aberta a todos, como era a ideia inicial, não teria tido a mesma repercussão. O autor de Triste fim de Policarpo Quaresma morreu no mesmo ano, 1922, em novembro. Os demais não continuaram um grupo coeso depois daquela semana de fevereiro.
O legado da SAM deu o que falar e desdobrou-se em inspiração para muitos artistas, em diferentes frentes. Foi, de fato, positiva pela liberdade formal que soprou sobre as artes, arquitetura, literatura.
Nesses cem anos em que se tornou um marco de mudança estética no país, de São Paulo para o restante do Brasil, reverberou inspiração e olhares alternativos, como o orgulho da cultura genuinamente brasileira e o desapego a um normatismo bolorento e importado.

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