EDINARA LEÃO – Professora, escritora, poeta e doutora em Literatura
Está se criando uma geração de alunos cruéis, desrespeitosos. Não sei se a falta de noção, de percepção, de limite vem de casa. Mas, sexta-feira (15 de julho), fui afrontada por uma turma.
Quiseram me dizer como eu, professora com 35 anos de cátedra, teria que dar-lhes aulas. E aulas tradicionais. Quiseram apequenar-me. Justo eu, que sempre voei alto. Que cheguei onde quis chegar. Por mim.
Então, eles quiseram despir-me de mim. Do que sou. Da educação que acredito. Dos resultados que vejo. Da energia que dou e recebo dos seres humanos que foram colocados no meu caminho.
EDINARA LEÃO – Conto: O homem mau
Eu não engulo. Nem arroto. Nem defeco gramáticas. Uso-as. Em primeiro lugar: a leitura. Em 2° a produção própria. Desenvolvo a autoria. Em 3° a interpretação. Dos fatos. Dos textos. Do mundo.
As versões. As entrelinhas. O que se diz sem dizer. Depois, a oralidade. Sou fã de carteirinha de bons trabalhos. De temas que pesquisam e desenvolvem. Sou aluna por um dia. Eles, meus professores.
Respeito-os em suas falas. Em seus saberes. E, sim, ensino também as subordinadas, os mais de vinte tipos, conjunção, pronome, acentuação, pontuação e… por aí vai. Aceito sugestões. Acato sugestões. Mudo minha maneira.
EDINARA LEÃO – CONTO: Mala Marron
Por bem me levam. O que não suporto é a prepotência. É a arrogância. É um 8° ano sentir-se superior ao mestre. Deixei as lágrimas caírem em sua frente. Na frente do meu algoz. Quem fere tem que saber que fere. Quem pisa tem que olhar nos olhos de quem é pisado.
Nós, professores, estamos carregando o mundo e tentando levar conhecimento. Mas, estamos cansados, feridos. Depois de tanto doer, as lágrimas secaram. Não completamente. Porque sou gente. E porque feriu a minha alma.
Podem dizer que falhei em tudo, não no meu ofício de ensinar. Esta turma, machucou este princípio. Derrubou este alicerce. Ando bamba. Sem uma perna. Quando fazia doutorado, minha orientadora disse-me: “O sistema te quer medíocre. Seja!” Mas eu não fui. Não na escola. Porque é na escola que vejo meus olhos brilhando!
Não com quadros entupidos de verbos, mas com booktrailers, com curta-metragens, com contos de 8 páginas, com crônicas não de Nárnia, da Boca do Monte! Com cartas aos autores. Recheadas de afeto. Eu amo as novas propostas de capa que meus alunos fazem aos livros que leem. Se eu fosse autor, contratava-as. Melhores que as originais.
Eu amo as aulas em silêncio. E os olhos vidrados nos livros. Eu amo aulas de poesia! A palavra encantada! Dos autores famosos. Dos alunos. Das quadrinhas populares que se transformam em flor. E breve vem os cordéis. E haicais… Eu amo o que faço. O que não sei, pesquiso, faço cursos.
E talvez por eu me doar tanto assim, que quando tive a ingratidão de uma turma, fui ferida na alma. Porque nunca dei aula para galinhas, sempre para águias. Tirar do conforto, desacomodar, eis minha missão.
EDINARA LEÃO: Tecendo palavras em quatro poemas
Fazer aulas em que a linguagem esteja em festa. Não para desacorçoar. Então, meus alunos querem apequenar-me para que eu caiba em suas formas aprisionadas de aprender a tão imensa Língua Portuguesa!
Talvez, e aí aceito isso como fracasso, talvez meu fracasso com estes seres que me desumanizaram ácida, agressiva e cruelmente, foi não ter me apequenado como eles queriam. Ou não ter-lhes emprestado o brilho dos olhos meus em 35 anos de exercício da docência… Triste.
Continuarei comigo, com o que sei fazer, eu acho que em algum lugar do mundo alguém quer uma fábrica fantástica de aula de Português. Talvez tenha secado este poço, mas não a fonte.
Edinara Leão traz militância cultural para o Paralelo 29
Talvez seja a hora de procurar outro começo. Em outro lugar. Lembro quando parti da Sérgio Lopes, Déia me disse: “Entendo sem entender que precisas partir”.
Aqui estou de novo. Quem sabe, para levar o pássaro da vida a cantar em outros céus. Onde não tentem dobrar-me. Ou apequenar-me. Talvez, hora de voar.

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