BELINDA PEREIRA – Psicóloga
Lembro como se fosse hoje. Era 1977. O anúncio do divórcio levou “pânico” a muitos que acreditavam que a instituição do casamento estava com seus dias contados e que este veio para destruir as famílias. Nada disso.
De lá para cá, as pessoas continuam casando e formando famílias, se bem que em outros moldes, mas continuam. Antes disso, as pessoas casavam e ficavam acorrentadas até o final de sua vida. O que era indissolúvel tornou-se solúvel. O divórcio abriu a possibilidade para novas uniões, mesmo que a contragosto de muitos.
Passados 45 anos, um assunto em voga é o divórcio tardio, como bem ilustrado através de uma série de TV chamada “Filhas de Eva”, a qual retrata a trajetória de uma das personagens chamada Stella, uma mulher de meia idade que, no dia das suas bodas de ouro, se dá conta de que, em função do casamento, abriu mão de seus sonhos e, no meio da festa de celebração, decide pedir o divórcio ao marido, derrubando a promessa de “até que a morte nos separe”.
BELINDA: Feliz para sempre?
É certo dizer que nada pode ser mais saudável, nessa altura da vida, do que se colocar em primeiro lugar e dar prioridade para seus sonhos e desejos. Chegar neste momento da vida e se dar conta de que o tempo está se esgotando, para algumas pessoas, pode ser a força que estava faltando para realizar mudanças.
Uns resolvem dar um basta em suas relações e começar uma nova ou partem para outros projetos, como mudar de profissão ou de país ou apenas morar sozinho.
A bem da verdade é que não é nada fácil encerrar uma união de longa data. Além do sofrimento de ambos os lados, existe um cabedal de questionamentos misturados em meio a dúvidas e incertezas, como: “será que estou fazendo a coisa certa?”; “Mas, nessa idade será que vale a pena mesmo?”; “O que os outros vão dizer?”; “Vou colocar fora tantos anos”; “E a solidão?”; “Será que vou conseguir alguém”?; “Quem sabe, espero mais um pouco…” A lista é enorme.
Em meio ao emaranhado de questionamentos, é possível que você continue esperando para tomar essa decisão. A separação conjugal, tempos atrás, era marginalizada. Ai daqueles e daquelas que ousassem destruir a família.
Velhice, o último evento da vida
Assim, uniões insatisfatórias ou problemáticas seguiam seu curso aos trancos e barrancos. Esse tipo de casamento até que a morte os separe funcionou durante o tempo em que as uniões eram baseadas em acordos e submissões.
Além disso, a vida era mais curta e com poucas e, às vezes, nenhuma novidade. Naquela época, quase não se ouvia falar em queixas que hoje em dia são motivos para os que pensam em uma separação, tais como: “falta de liberdade”; “falta de afeto”; “incompreensão”; “falta de sexo”; “brigas constantes”; “violência”; “manipulação”; e por aí afora.
Felizmente, os tempos são outros e muitas pessoas não estão dispostas a sustentar um casamento recheado de insatisfação. A boa nova é que a longevidade abriu a possibilidade para que possamos nos (re)inventar.

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