ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA – ESCRITOR
Nos primeiros minutos da série ‘Caleidoscópio’ o protagonista e mentor de um grande roubo – 7 bilhões de dólares –, profere a seguinte frase: “Toda história tem dois lados. E nenhum deles é a verdade”.
É o que temos para analisar quando olhamos para os quatro últimos anos e vislumbramos os próximos quatro: os dois lados e, no caso, as verdades…
Quando tínhamos a opção de escolher entre o professor e o capitão, parecia uma escolha óbvia, mas os brasileiros votaram no militar. Aqui não quero refletir sobre os porquês. Havia dois lados, e a verdade de uns não era a verdade de outros. Ou será, como sugere o personagem, que não havia verdade? Mas há uma constatação. O governo do ‘imbroxável’ foi um desastre seguido de outro.
Faltou empatia, respeito, solidariedade, cooperação, apoio… e sobrou negacionismo, truculência, inoperância, incompetência. Sem falar nas frases drasticamente colocadas com expressões chulas indignas do mandatário da nação.
O melancólico fim foi previsível. O capitão fugiu e o general alfinetou o capitão. Mas o presidente em exercício também não se dignou a passar a faixa. E o que parecia uma quebra do protocolo republicano, transformou-se na mais icônica e memorável cena da posse presidencial. O presidente recebeu, literalmente, a faixa dos braços do povo. Há de ser lembrada por muito tempo.
Não me iludo com ‘picanha e cerveja’, nem como metáfora, pois o estrago foi grande a reconstrução será homérica. E a lua-de-mel com o governo empossado acaba em 100 dias.
Nestes últimos quatro anos fomos testados em nosso caráter democrático. Em diversas situações a parcela da população que apoiou o capitão desejava a volta da ditadura, o AI5, ‘intervenção democrática’ e davam vivas aos militares com o propósito de rasgar a constituição. Pasmem, tentaram contatos imediatos de terceiro grau para conseguir seu intento. [Eu ri, mas ciente da tragédia que se anunciava].
Então, chegamos no dia primeiro de janeiro. Um mar vermelho – não sei se de maragatos ou colorados [rsrs] – presenciou a posse de Lula como presidente. Um verdadeiro domingo para celebrar a democracia.
Espero que os desvairados extremistas tenham aprendido a lição. Numa democracia toma posse quem leva mais votos. Na nossa democracia sobe a rampa o mais votado.
Havia dois lados e nenhuma verdade absoluta, mas havia o lado democrático…
… que dói menos.

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