DIOMAR KONRAD
Publicitário
Após encerrada a reunião de negócios, os velhos amigos entram em uma conversa mais pessoal.
– Então, como vão as coisas?
– Estou meio desanimado. Cansei de ser o provedor, o macho alfa. Não estou mais lidando bem com a situação.
– Sei como é, estou na mesma.
– Olha só. Acordo quase de madrugada, praticamente todos os dias. Passo o dia inteiro trabalhando, sem aproveitar a vida. Boa parte do que ganho está comprometida com as contas fixas, incluindo a prestação da casa, do carro e as despesas com as crianças. Chego de noite em casa e sou quase um estranho. Quando vou falar alguma coisa, estou por fora, pois os outros estão ligados no que acontece. Estou acima do peso, com tendência a ter doenças crônicas em breve. E o estresse, então: vivo debaixo da maior pressão para alcançar as metas, que não param de subir. Não sei se era isto que esperava da minha vida.
– Eu também. Mas quando penso em largar esta vida, passo a refletir sobre todos que dependem de mim: mulher, filhos e até alguns parentes. Como será que iam se virar?
DIOMAR KONRAD – Crônica: A experiência
– O problema são todos estes condicionamentos. Dizem que é um sistema machista, que oprime os demais. Mas, e nós? Não sabem todas as obrigações que temos como homens. Não podemos chorar, demonstrar fraqueza, temos que trocar o chuveiro, dirigir, são muitas obrigações. Se vou num bar, por exemplo, não posso tomar um drink que ficam olhando. Tenho que ficar na cerveja ou nos destilados mais fortes. E gosto tanto daqueles coquetéis.
– E o pior que isto vem desde cedo. Lembra quando tínhamos que mexer com as gurias na rua, pois todo mundo fazia isto. E mentir dizendo que pegamos esta ou aquela. Estávamos sempre querendo provar a nossa masculinidade, como se nossa sobrevivência dependesse disso.
DIOMAR KONRAD – Crônica: Máscaras
– É verdade. Muito ruim. Mas quem será que criou este monte de obrigações. As mulheres estão por aí, reivindicando seus direitos. E nós, o que podemos fazer? Também quero ficar protestando contra essa opressão toda, que parece ser a nosso favor, mas também nos aprisiona.
– E se a gente começasse o movimento hominista? Poderíamos lançar a palavra de ordem “ser provedor, isto sim é um horror”. Lembro que uma vez criaram o clube dos maridos dominados. Mas eles tinham uma limitação. Não queriam deixar de obedecer, apenas que as esposas parassem de fazê-los passar por situações humilhantes. O que nós defenderíamos seria a liberdade masculina, sem imposições. Podemos até fazer uma lista do que não gostamos.
– Pode ser. Mas não tenho mais paciência para ficar na rua, gritando palavras de ordem. Vai ter que ser pelas redes sociais. Vamos ver se mudamos esta cultura.
DIOMAR KONRAD – Crônica: O endividado
Nisso, entra a secretária:
– Com licença, senhor. A sua esposa ligou para não esquecer de pegar as crianças no colégio e passar na padaria. Também perguntou se foi feita a transferência para a conta dela. Lembrou ainda do jantar de comemoração do aniversário do casamento dos pais. É hoje.
Ele vira para o amigo:
– Vamos ter que nos articular. A cada dia que passa, aumentam os compromissos.

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