FABRÍCIO SILVEIRA
Professor universitário
Um estudante de Comunicação Social, logo nos primeiros semestres do curso, irá se deparar com a discussão sobre o fascismo.
Por muitas razões, essa é uma temática não só inescapável, mas fundacional de nossa área: primeiro, porque não há como dissociá-la da temática da propaganda nazista (e o modo como o nazismo instrumentalizou as mídias – sobretudo o rádio, bem sabemos – é, até hoje, objeto de estudos, para que não se esqueça e jamais se repita); segundo, porque aciona outros tantos temas convergentes, relativos, todos, às comunicações de massa: a psicopatologia da vida cotidiana, os apelos da personalidade autoritária, o culto à personalidade e a psicologia das multidões.
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E outros assuntos ainda poderiam ser listados como variações ou desdobramentos nesse mesmo tronco comum: as políticas da desinformação, as retóricas do ódio, do medo e da aniquilação do adversário político, as estéticas da militarização e da guerra.
Embora sejam compartilhados com a Psicanálise, esses temas são temas muito caros à História e às próprias Teorias da Comunicação.
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Nossa disciplina universitária surge, fundamentalmente, embora não só, como resposta a esses fenômenos de tamanha gravidade e impactos sociais, emergentes entre as décadas de 1920 e 1940.
Obviamente, esse é apenas um ângulo a partir do qual o fascismo pode ser pensado. Outras disciplinas – tais como a Ciência Política, a Filosofia Política, o Direito, a História e as Ciências Sociais, bem como o já citado campo Psi – irão refinar seus instrumentos específicos, seus conceitos e seus métodos, irão definir os modos particulares através dos quais o mesmo fenômeno será tratado.
Tendo em vista que o conceito do fascismo voltou à tona nos últimos anos, colocando-se em circulação nas mídias, nas conversas de bar, na boca dos analistas políticos, dos blogueiros e dos influenciadores digitais, o que pretendo fazer aqui, nos próximos escritos, é revisar esse conceito, é apanhá-lo tal como formulado por três autores importantíssimos, três marcos inegáveis da área da Comunicação: os filósofos Theodor Adorno, Susan Sontag e Umberto Eco.
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Antes que o leitor se impaciente, vale lembrar que são três autores muito distintos, de três nacionalidades distintas (na ordem, um judeu alemão, uma cidadã norte-americana e um cidadão italiano), que passaram por experiências históricas e formativas também muito diferenciadas.
Não há como argumentar que eles compartilham e reproduzem uma cartilha comum. Só mesmo a impaciência e o preconceito permitirão entendê-los como dispensáveis ou então como agentes mancomunados de um mesmo e único ideário político.
Numa época em que o fascismo parece ter retornado, em que essa expressão é invocada, a todo momento, para descrever a ação política de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro – dentre outros, em diversas latitudes –, pode ser útil reservar atenção ao assunto.

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