LUDWIG LARRÉ
Jornalista
“Arbeit macht frei”, em bom Português, “O trabalho liberta”. A expressão grafada em alemão ressurgiu das trevas em um cartaz exibido por uma advogada, em recente e ostensiva, porém diminuta, manifestação contra as medidas de distanciamento social anunciadas pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul no momento mais crítico da pandemia.
O primeiro registro de autoria da frase, tão facilmente atribuível à sabedoria popular, surge no título de um romance do alemão Lorenz Diefenbach, publicado em1873.
Mais tarde, em 1928, foi adotada como slogan do programa de grandes obras públicas, que tinha como objetivo combater o desemprego na então República de Weimar.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: Teteza
Quando o partido nazista chegou ao poder, em 1933, a expressão ganhou novo emprego.
Ainda é possível encontrá-la, nos dias atuais, como frase motivacional de boas-vindas nos pórticos de entrada de campos de concentração como Auschwitz, Dachau, Sachsenhausene e Theresienstadt.
O cartaz que surgiu em Porto Alegre, entre manifestantes que se enrolam na Bandeira do Brasil, pretendia, de acordo com a ativista, “defender o direito de trabalhar”.
Tenho cá comigo que a tal advogada jamais leu a narrativa de Diefenbach. Confesso que também não li. Você leu? Não vem ao caso.
LUDWIG LARRÉ – Crônica: O carcinoma no tecido social
O fato é que, se jogarmos a expressão em qualquer mecanismo de busca, a referência mais abundante será sempre o macabro portão de entrada sem saída dos campos de concentração nazistas.
Creio, portanto, pouco provável que a inspiração da manifestante tenha outra origem.
Creio também pouco sincera, assaz repentina e surpreendente tamanha preocupação com classe assalariada.
Observando os perfis desses manifestantes e dos ativistas de redes sociais contrários às medidas de distanciamento social, sob o disfarce de “defensores da economia e dos empregos”, encontro outros sentidos e muitas incongruências.
Paralelo 29 tem novo cronista: Ludwig Larré
Entre conhecidos usuários de camisas da CBF, vejo gente que não emprega ninguém, gente que sequer tem atividade legal a declarar.
Em meio aos “defensores dos empregos”, encontro notórios empreendedores que jamais tiveram qualquer escrúpulo em demitir funcionários.
Vislumbro campeões do aviltamento de salários e condições de trabalho. Deparo-me com proeminentes sonegadores de impostos. Esbarro em destacados fraudadores do recolhimento de INSS.
Identifico autores de contumazes ataques aos direitos trabalhistas. Reconheço exploradores predatórios do trabalho alheio.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
Observo hábeis dribladores de assinatura da Carteira de Trabalho. Dou de cara com empresários sem o mínimo compromisso de qualidade com os produtos e serviços que ofertam aos clientes.
Esses que economizam na “noção do outro”, que desconhecem empatia e sensibilidade com o próximo, são os que agora se arvoram em “defensores dos empregos”, do direito de trabalhar.
Nesse caso, a escolha da palavra de ordem “Arbeit macht frei” faz todo o sentido.
Não posso afirmar, entretanto, que todos os manifestantes negacionistas se enquadram no perfil descrito.
Também não posso generalizar dúvidas quanto ao caráter dos que pregam a inocência da “alma mais honesta deste país”.
MARCOS RIBEIRO – Opinião: Já atingimos o colapso?
Em meio a qualquer aglomeração ideológica, sempre há os meramente abobados.
Em um contexto absolutamente diverso – e em bom Português –, todavia, concordo com a formulação de que o trabalho liberta, desde que exercido de forma digna e remunerado como tal.
Caetano Veloso, porém, afirmou estar provado que só é possível filosofar em Alemão.
GILSON PIBER – Opinião: Vacinação precisa avançar
Para utilizar outra expressão muito em voga entre os militantes verdamarelos, sugiro para a próxima manifestação uma faixa com letras garrafais num daqueles caminhonetões cabinados: “Dummheit uber alles”.
Que se dê ao trabalho de traduzir quem, assim como eu, não domina a língua de Johann Wolfgang von Goethe, aquele tiozinho que, no leito de morte, suplicava “Licht mehr licht”.

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