FABRÍCIO SILVEIRA
Jornalista e professor universitário
Caros pesquisadores, espero que estejam bem. Me agrada supor que sua nobre disciplina ainda existe, que não foi extinta por um decreto nem se diluiu numa sub-especialização de processamento ou mineração de dados, como o cômputo discreto de alguma inteligência artificial. Fico contente, acima de tudo, por terem interesse pelo que nos aconteceu.
Antes de iniciar, peço licença para me dirigir a vocês desde tão longe. Hoje é oito de junho de 2021 e acabo de receber a notícia de que o processo recente (“recente”, para mim, é claro) movido contra o general Eduardo Pazzuelo, ex-ministro da Saúde do Governo Jair Bolsonaro, será mantido em sigilo por cem anos.
FABRÍCIO SILVEIRA: Pandemicídio bolsonarista como suicídio do pais
Tanto zelo e tanto mistério me intrigaram. Em realidade, fiquei um pouco temeroso. Raras vezes vi um gesto de Estado – relativo a um funcionário do alto escalão da República – cercar-se de tanta opacidade.
Mas minha memória – vejam só! – me aplica uma pequena peça e, no ato, já preciso me retratar: há cinco meses, o cartão de vacinações de nosso atual presidente (“atual”, para mim, não preciso mais dizer) foi protegido por igual período: estipulou-se que fosse mantido em segredo até janeiro de 2121. Me pergunto qual a necessidade disso.
FABRÍCIO SILVEIRA: Sociologia perfeita
Resguardar a segurança nacional? Tudo se torna tão esotérico e intrigante porque acreditamos viver num mundo de liberdades plenas, visibilidade e transparência máximas – onde as informações parecem circular sem freios, em inúmeras frentes, à disposição de todos.
Considero-me um democrata. Leio as notícias que me parecem mais confiáveis. À exceção do Correio do Povo, opto pelos jornais impressos mais antigos. Vejo dois ou três programas jornalísticos na tevê a cabo.
Na televisão aberta, o Jornal Nacional é o único que acompanho, todas as noites, durante a semana. William Bonner cultiva hoje – pasmem! – as barbas brancas de um senhor idoso. Somos da mesma geração, eu acho. Crescemos com a Nova República.
Há bons canais de discussão política no YouTube. Eu sigo alguns deles. Fujo, porém, dos grupos de minha família no Whatsapp. Detesto cloroquiners tanto quanto detesto usuários compulsivos do Twitter ou celebridades do Instagram. Essa é a bolha onde me refugio.

O Palácio do Planalto impôs um século de silêncio, nos casos que relatei acima, invocando o artigo 31 da Lei de Acesso à Informação. É um ótimo argumento, ouço dizer um dos críticos mais ferrenhos do atual governo.
Como ele, espero que a carta constitucional, por décadas, continue valendo. Vocês sabem muito bem do que eu estou falando.
Sob o impacto das novidades – são tantas e tão rápidas, verdadeiras ou não –, lembro-me de um documentário que assisti durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (IV)
Chamava-se O Dia que Durou Vinte e Um Anos e só foi possível com o acesso, autorizado pelo governo norte-americano, a uma série de documentos, incluindo registros de áudio, sobre a ditadura no Brasil.
O que me incomoda – quando penso na retórica oficial que vejo se contorcer à minha frente – não é só a inutilidade, mas a extensão do prazo de vigência do segredo.
Afinal, embora se possa omitir (ocultar um nome ou outro, produzir falsas causalidades, falsas consequências), não se pode retirar um fato do processo histórico. É possível queimar livros, por exemplo.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O avesso do bom senso
É possível impedir o estudo da História. Até jogar memória contra memória se pode fazer. O processo histórico, contudo, ele próprio, estará aí para que possamos lê-lo (e, de certa forma, redimi-lo).
Não sei de que modo – ou em que suporte – essa carta irá lhes alcançar. Não imagino como serão os arquivos e os documentos históricos de 2121, nem como serão escolhidos, interpretados e manuseados.
FABRÍCIO SILVEIRA – OPINIÃO: O eterno retorno do fascismo (III)
Mantenho-me quieto, como é conveniente, e apenas especulo sobre o teor daquilo que o governo esconde.
Daqui a cem anos – no dia de hoje – vocês irão confirmar nossas suspeitas. Espero que façam justiça e que possam nos salvar.

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