Uma super crônica produzida por duas mentes (e a quatro mãos). O jornalista Ludwig Larré e o escritor Ronaldo Lippold presenteiam os leitores do Paralelo 29 com um texto agradável, leve e instigante
LUDWIG LARRÉ
Jornalista
O Ronaldo Lippold, tão logo lançou “Meu reino por uma cerveja” (Memorabilia, 2021), fez o agrado de me mandar um exemplar autografado.
Sorvi em três goles, saboreando a brassagem dos melhores maltes e do lúpulo das narrativas, com consistente e cremosa espuma das referências históricas. Nestes tempos bicudos – em que um proletário barnabé amanuense vive fustigado, de um lado pela falta de reposição salarial e, de outro, devorado pela inflação descontrolada no supermercado –, minha biblioteca só tem incorporado novos volumes pelas carinhosas doações de lançamentos dos amigos.
Minha cesta básica de literatura recebeu ainda maravilhosas contribuições do Athos Ronaldo Miralha da Cunha, com “Contos de Prata”, (Editora Penalux, 2020); do Fabrício Silveira, com “Gigante Figura” (Livros do Riacho, 2018) e do Ricardo Ritzel, que me honrou com a incumbência do texto de apresentação de “As Cinco Tumbas de Gumercindo Saraiva” (Martins Livreiro Editora, 2021). Recebi ainda valiosos pacotes d’Além Mampituba, dos queridos Mauro Maciel e Valmor Fritsche.
LUDWIG LARRÉ: Mês do Orgulho LGBT
O momento político não é de nutrir esperanças, mas tenho uma lista grande de lançamentos de amigos para adquirir, assim que for possível retomar o consumo de livros e uma carnezinha no feijão.
Num desses dias que esfriou, achei uns trocados esquecidos desde o inverno passado no bolso de um casaco e resolvi retribuir a gentileza do Lippold.
Encomendei três variedades da Cervejaria Steilen Berg, que me entrega a domicílio uma honestíssima cerveja artesanal, quase ao mesmo preço desses simulacros industrializados vendidos nos mercados. Aproveitei a visita de uma das filhas e despachei a encomenda para Santa Maria, pois até lamber um selo está pela hora da morte neste país.
LUDWIG LARRÉ: Deus cosmomórfico
Como não é sempre que surge a oportunidade de economizar no caro, precário e sucateado serviço postal público – que já teve a EBCT como uma das mais sólidas e eficientes empresas estatais –, abusei da boa vontade da filha e do Ronaldinho para embutir outro destinatário na remessa.
Coube ao Lippold fazer chegar parte do pacote ao José Alfredo Licht Teixeira. Há quase um ano, tinha comigo exemplares autografados pelo Frank Jorge de “Realidade e Chantillys Diversos” (Artes e Ofícios, 2000) e do CD “Histórias Excêntricas ou Algum Tipo de Urgência”.
Os autógrafos eram para o Zé Alfredo e para o Gerson Périco. No próximo trocado que achar nos bolsos – ou no próximo portador –, juro que despacho a encomenda do Seco Gerson para Garopaba.
LUDWIG LARRÉ: O homo algoritmo
Encaminhada a entrega para os amigos santa-marienses, fiquei no aguardo do parecer de expert do Lippold, que também é cervejeiro, sobre minha artesanal porto-alegrense preferida.
Para criar suspense e compartilhar com o leitor a sensação de espera (que foi prontamente respondida), vou contar como o livro e o CD do Frank Jorge vieram parar em minhas mãos:
Ano passado, assim que as medidas de distanciamento social definiram que os músicos fossem os primeiros a parar e os últimos a retomar o trabalho, meus geniais amigos, Max Sudbrack, Pedro de Azevedo Medeiros e Marcio Kadush, da banda Sopro Cósmico, estavam oferecendo shows a valores super promocionais para condomínios e outros espaços, onde as pessoas pudessem fruir da música ao vivo no confinamento de suas janelas, sacadas ou devidamente distanciados nas áreas de uso comuns.
Eis que dispomos de uma laje com jeito de palco sobre a garagem da casa em que vivemos no Bairro Petrópolis. Palco perfeito para o paredão de prédios do outro lado da rua.
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Contratamos, a patroa e eu, a Sopro Cósmico. Conversamos com a vizinhança, que abraçou a causa, e abrimos a arrecadação na caixinha de correspondência para dar sequência ao projeto.
Nascia ali o Palco Multilaje, brincadeira com o nome do Multi Palco do Teatro São Pedro e com minha cara de laje para me meter a produtor.

O sucesso foi tamanho que, com o primeiro show pago do bolso, cada atração passou a arrecadar cachê para a apresentação seguinte. Foram quase vinte shows, nas tardes de sábados e domingos.
A vizinhança aplaudia das sacadas, das janelas ou em pequenos grupos familiares devidamente distanciados na calçada.
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A iniciativa cultural comunitária vingou, e desfilaram pela laje da nossa morada o Blues da Casa Torta, o samba raiz do Grupo Puro Asthral, os queridões Tchê Gomes, com seu trio, e Gaby Ferreira, com a Banda Polainas.
O Fabio “Musclinho” Ly abraçou de embaixador do projeto e trouxe o Júlio Reny. Teve a Pocket Groove, com Nuno Lucena e Filipe Siak; teve a Banda Área 27, a D.J. Karine Larré, num set de música eletrônica em contraponto com a gaita de foles, as flautas e o saxofone do Tales Melati.

Veio o sensacional Carlinhos Carneiro, com o Flávio Flu Santos e o Chico Bretanha, fazendo o show “Só Amor”; veio o Jei Silvanno, veio o Frank Jorge, e devo ter esquecido de citar alguém.
Desse elenco de lendas vivas da música de Porto Alegre, teve gente que pediu para voltar e tocou duas, três vezes. Levamos o projeto de abril ao final de agosto, quando o sol e o calor de pré-primavera inviabilizaram a ocupação do espaço nas tardes de final de semana.

LUDWIG LARRÉ – Crônica: Estátua viva
Os músicos, além da coleta do “chapéu”, que a vizinhança ia depositando na nossa caixa de correspondência, faziam suas lives e recebiam contribuições do público virtual. Quem trouxe CD não deixou de vender.
Em um momento em que estavam impedidos de trabalhar, músicos dessa expressão reforçaram o orçamento e, sobretudo, reforçaram a proposta de uma iniciativa cultural, orgânica e solidária. O desejo de todos os envolvidos era de que ações desse tipo se multiplicassem por outros bairros da capital e por outras cidades do interior.
Explicado como o livro e o CD do Frank Jorge chegaram às minhas mãos, já com encomenda de autógrafo para alguns amigos, quase um ano depois, aproveitei o envio das cervejas para degustação do Ronaldinho e mandei junto a encomenda do Zé Alfredo. Caberia ao Lippold fazer chegar até o destinatário final.
LARRÉ – Crônica: O Dia da Terra
Ao preparar o pacote, entretanto, encontrei um CD a mais do Frank Jorge, além do meu e dos encomendados. Enfiei no pack de cervejas e avisei o Ronaldo de que haveria uma surpresa dentro da caixa.
Pouco depois de receber a entrega feita pela minha filha, o Lippold me dá seu veredito sobre as cervejas e o CD do Frank Jorge. Deixo que ele narre com as próprias palavras a partir deste ponto.
***
RONALDO LIPPOLD
Escritor
No dia combinado, depois de um recado pelo whats de que o ônibus estava chegando em Camobi, me dirigi à rodoviária de Santa Maria.

Confesso que tenho uma certa aversão com esses locais, principalmente com relação à da capital, por ter feito durantes anos esse percurso que me parece cada vez mais longo e aguardado muitas horas de minha vida a espera de um Planaltão.
Cheguei em poucos minutos e logo estava no box de sempre. Procurei o celular no bolso e nada dele. No relógio dependurado marcava 12 horas, horário tradicional de chegada.
Aguardei alguns minutos, e nada do ônibus. Algumas pessoas aguardavam ao lado esquerdo do box e resolvi me informar. Não sabiam de nada, esperavam um oriundo de Uruguaiana.
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Resolvi fazer a volta em todo o prédio e vi uma garota parada olhando o celular. É ela, pensei. Esqueci de contar que não conheço a filha do Ludwig e que havia visto dias antes apenas uma foto pelo celular.
– Helena?
A mocinha negou com a cabeça e saiu de fininho, surpresa com a minha indagação.
Continuei caminhando, já um pouco mais rápido e com a dúvida de que, pela primeira vez em anos o carro chegara antes do previsto. Já do outro lado da Rodoviária, encontrei alguns ônibus chegando, e tropegamente saí dizendo:
– Alô, Helena. Da capital ou de Tróia!
E nada, apenas olhares curiosos. Quem será este louco?, ouvi uma garota dizer entre lábios…
Voltei por dentro do prédio. Andei aqueles longos metros pensando: rateei, a menina chegou e o velho bobo a perdeu.
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No box tradicional nenhum movimento de pessoas jovens, apenas alguns idosos olhando com extrema atenção seus bilhetes.
Resolvi descer ao térreo. Nos bancos da entrada uma menina com o telefone no ouvido me abanou timidamente. Era Helena ligando para meu aparelho que repousava esquecido em algum lugar de minha casa.
Após a apresentação de praxe, pedi desculpas e me ofereci para deixá-la em casa. Ela agradeceu, avisou não ser necessário e me entregou o valioso pacote. Me despedi da simpática garota, apreciando a esperado encomenda.
Cheguei em casa, almocei rapidamente, lavei as esperadas cervejas, coloquei estrategicamente na geladeira e resolvi apreciar o bonito encarte do disco de Frank Jorge, chamado estranhamente “Histórias Excêntricas ou algum tipo de Urgência”.
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Confesso não ser um profundo conhecedor da obra do guitarrista e compositor gaúcho que surgiu na levada dos anos oitenta e já tem vários trabalhos no currículo, tanto solo, quanto com bandas como Os Cascavelletes e Cowboys Espirituais (tenho um disco), porém, o que ouvi, gostei.

Dei o play no aparelho e fiquei atento, esperando uma guitarra surgir desafiadora em minhas caixas de som.
Para meu espanto, começou uma batida afro, um batuque que tempos atrás ouvia toda semana em uma casa perto da minha no bairro Nonoai.
Fiquei ouvindo atentamente aquela percussão ritmada e a voz rouca de um “negro velho” cantarolando mansamente num dialeto africano.
Aquilo durou uns 50 segundos e pensei: muito estranha essa primeira canção do Frank, bastante diferente.
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Aumentei o som e a segunda canção começou ainda mais cheia de ritmos, com rezas e vozes que me levaram a antigos centros de Umbanda que frequentei em longínquas épocas.
Nisso a Neneca, acostumada a ouvir blues, jazz e rock, aparece e me pergunta, com um olhar questionador:
– Abriu um Centro de Umbanda na biblioteca? – E já saiu acendendo um incenso.
Expliquei o ocorrido e resolvi de imediato verificar o disco enviado dentro da bela embalagem do CD do Frank Jorge: “O Berço do Batuque no Rio Grande do Sul”- Mestre Borel – Toques e Cantos da Nação Oyó-Idjexá.
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Confesso que achei tudo muito engraçado e gostei dos presentes, lógico. Mas, principalmente do outro que tomei com o ritual sagrado que merecem as grandes cervejas, na companhia de meu filho, Pablo.
Após contar ao amigo Ludwig, responsável por todo o ocorrido, demos muitas risadas. Ou descobrimos a paixão do Frank Jorge pela religião africana ou precisamos tratar urgentemente da devolução de material didático do multi-instrumentista, que também é docente de cursos superiores na área da música
Kaô kabecilê, Xangô!

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