BRUNA OSÓRIO PIZARRO – Psicóloga e Psicanalista
“Causar um alvoroço gigantesco e sem necessidade” é parte de uma mensagem recebida, endereçada a mim, após a publicação do texto “Santa Maria, política e seus detalhes” no site Paralelo29.
Este último se refere a um fato narrado em relação ao 1º Seminário alusivo ao Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua em Santa Maria.
Sempre me questiono se as intervenções vindas de homens seriam as mesmas se fossem destinadas aos homens. Poderia me deter em várias palavras utilizadas, contar o que senti em lê-las e trazer o questionamento ao público, inclusive, para medir meu parâmetro sobre as desigualdades de gênero. Mas, por enquanto, pegarei a frase emprestada para entrar em “outro” assunto.
Calma leitor/a, este texto não é uma indireta ou resposta ao que acontece nos bastidores por aqui. Apesar de eu estar cansada em calar as violências que me chegam. Hoje me dedico a escrever, justamente sobre O quê “pode causar um alvoroço gigantesco” e o quê seria “sem necessidade?”.
Sobre essa frase, especialmente a primeira parte, fiquei me questionando o quanto um “não deixar passar” pode pontuar um limite, uma atenção, e talvez, causar um “alvoroço gigantesco”.
Confesso que causar alvoroço não faz parte do que vim fazer no mundo. Mas pensar em destinos e mudanças, a partir do que não calamos, especialmente quando sentimos como violência e injustiça, faz bastante sentido para mim.
A verdade é que o quê me tocou profundamente foi o “sem necessidade”. E a junção do que pode ser considerado “sem necessidade” com o “alvoroço” se tornou interessante de pensar.
Percebo como acabamos achando que muitas coisas não são necessárias de serem faladas, contadas, debatidas. Esse “sem necessidade” me lembrou muito o que eu escutava em relação a Kiss, quando eu era conselheira do Conselho Regional de Psicologia do RS. Frases como “Já deu”, “Ainda estão nessa?”, “Todo mundo pode perder um/a filho/a a qualquer momento”, são algumas que lembro agora.
Participo de um Coletivo de Psicanálise de Santa Maria, que se encontra há mais de um ano, dialogando, estudando e pautando intervenções para a cidade. Neste, em um dos encontros, recebemos o novo presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de SM, Gabriel Rovadoschi Barros.
Gabriel compõe a Gestão “Re-Existir”, em que fazem parte da diretoria os sobreviventes Delvani Rosso e Cristiane Clavé, além de Marilene Santos, Darci Andreatta e Lívia Oliveira, pais de vítimas.
Passados quase 10 anos desta tragédia, vemos na presidência e na composição da Diretoria da Associação, sobreviventes! Sim, muitos são os sobreviventes!
“A Kiss segue matando” foi a frase que escutei quando estive na Vigília da Kiss, dia 27 de agosto, na Praça Saldanha Marinho. Muitos são os sobreviventes diretos desta tragédia. Circula um número de mais de 500 pessoas, mas, pelo que entendi, ainda sem pernas para tal confirmação. Quantas estiveram lá e não se sabe? Quantas ainda não conseguiram falar nestes quase 10 anos? Quantos querem apagar da memória e seguir, apenas seguir… (isso seria possível?).
Penso o quanto a Psicologia tem o compromisso de atuar na reparação, auxiliando ao direito à memória, ao registro no tempo. E o quanto a população pode tomar essa “pauta” para si. Precisa ser familiar? Sobrevivente? Será que não somos afetados por essa tragédia? Onde está em você esta dor?
Eu precisei de um tempo para entender o que este acontecimento causou. Ainda estou neste percurso. Talvez, ele nunca finalize. E este é o ponto, que direito as pessoas têm de falar que algo é “sem necessidade”? Deveríamos escutar isso, também, como um sintoma do que não se “aguenta escutar”?
Tenho falado em “sobrevivente direto”, estes que não vemos, não escutamos, não “ouvimos falar”. “Direto” porque eu também me sinto uma sobrevivente do que Santa Maria fez e faz com esse acontecimento. (In)diretamente, mas que toca em algum ponto. E por isso, não quero mais calar! Por quê sou parte do que critico. Sou parte de Santa Maria. Vivo aqui. Vivo. E vivemos de memórias.
Vamos falar ainda, e muito, sobre o que todos, todas, todes nós fazemos com as marcas invisíveis que a Kiss deixou!
E com o quê, coletivamente, a cidade de Santa Maria faz com esta tragédia que marca os dias 27 de cada mês, de outra forma.
Ps: 27 de agosto é o Dia Da/o Psicóloga/o, um dia importante para a categoria! Neste ano (2022), comemoramos 60 anos de regulamentação da profissão. Uma profissão que se preocupa com a transformação social, com compromisso social, ético e político! Pautados nessas premissas, devemos nós, psicólogas/os estarmos atentos ao que estamos produzindo, enquanto seres humanos, e ao que fazemos dos efeitos da tragédia Kiss na cidade em que atuamos?
Estejamos todos/as/es cientes que somos sobreviventes do que acontece no ambiente em que vivemos!

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