LOUISE DA SILVEIRA – LICENCIADA EM LETRAS PELA UFN E MESTRA EM GEOGRAFIA PELA UFSM
Sou filha de uma não relação entre duas pessoas negras. Quando pontuo não relação, quero demarcar ser fruto de um incidente de percurso o qual, na atualidade, ganha a alcunha de “mãe solo”, referindo-se a mulheres que não casaram e ficaram com a tarefa da maternidade concomitante com sua solidão.
Minha mãe, mulher negra, não casou. Ficou com uma filha não registrada pelo doador de material genético nos braços e cheia de missões difíceis para o resto de sua vida.
Sou de 1986, fruto de uma geração que se criou à sombra perversa do mito racial de Gilberto Freyre e viu nos clubes negros do estado do Rio Grande do Sul, um espaço seguro (de uma certa forma, encapsulado) para exercer uma negritude ainda bastante perseguida nas décadas de 60, 70, 80 e 90.
Nesse sentido pensava-se que a nossa sociedade racista e escravocrata, vivia (se é que ainda não vive) nos preceitos ultrapassados de Gilberto Freyre (1933), que dentre muitos equívocos, acreditou que se tratando de Brasil “suavizou-se aqui o atrito ao óleo lúbrico de uma profunda miscigenação, quer sob forma de união livre condenada pelo claro, quer pelo casamento regular cristão, com o estímulo da Igreja e do estado”.
Ou seja, a falsa democracia racial, no Brasil, foi um projeto eficiente, o qual, ainda hoje em 2023, vigora e torna discussões de raça, de menor importância no cerne da cultura brasileira, uma vez que, “se somos todos miscigenados” discutir raça é tratado como um assunto de menor relevância.
A afetividade da minha mãe, bruscamente marcada pelo abandono de um homem negro, foi o vacilo conceitual o qual me cegou durante a minha adolescência e boa parte da minha vida adulta.
A atitude do meu pai (estranho escrever isso) fazia eu pensar a afetividade como um jogo bastante complexo de negação do homem negro em relação a mulher negra, porque meu pai, até onde eu sabia, havia se casado com uma mulher branca, meus tios (tanto materno quanto os paternos) também, logo, eu não consegui, durante muito tempo, compreender que, é também papel do racismo estrutural separar
homens pretos de mulheres pretas, colocando no corpo branco uma espécie de “redenção” ou antídoto de nossa negritude.
Hoje, mais velha, com marcas profundas do racismo estrutural em minhas próprias experiências amorosas, entendo quando hooks (2010) alerta “que nossas dificuldades coletivas com a arte e o ato de amar começaram a partir do contexto escravocrata”.
Como amar corpos os quais, durante muito tempo, foram associados apenas ao trabalho braçal e animalização do sexo?
E no presente, como amar e se amar, em um contexto que dita o tempo todo que corpos para ganharem amor, necessitam seguir rigorosamente padrões engessados de branquitude, heteronormatividade, feminilidade e masculinidade associados a cisgeneridade e tudo que fugir disso, nos torna o outro (outsider) e nossa espacialidade, marginal?
Tive filhas com um homem negro. Casei. Não foi o bastante para me proteger da sina de ser largada com duas filhas e meu ex-marido seguir trépido e fagueiro para os braços de uma (ou várias) mulher branca.
Mas, não conseguir ocupar um espaço social de mulher bem-sucedida na vida amorosa, é também espacialidade. Pelo prisma de Silva (2009) o espaço é produto da dialética entre as dimensões do percebido, concebido e vivido, bem como da multiplicidade de trajetórias, sendo aberto, fluido e relacional.
Nesse sentido, a compreensão do espaço paradoxal acrescenta que a dinâmica entre os sujeitos, identidades e espaços também é múltipla, aberta e fluida e não mais demarcada por valores os quais não cabem mais nesse tempo e mesmo assim, insistem em permear a sociedade, sob e égide do conservadorismo (este, como é do conhecimento de todos, racista, escravocrata, machista, etc).
Meu corpo negro hiperssexualizado pelo imaginário masculino branco, me oportunizou relações inter-raciais, as quais pretendo esquecer e nunca mais repetir (risos de alívio).
Importante salientar que, Moutinho (2001) observa, em seu estudo sobre relacionamentos afetivo/sexuais entre negros e brancos, que nas análises que mencionam relações afetivas inter-raciais, sejam elas quantitativas ou qualitativas, é bastante recorrente a preocupação em identificar os fatores que levam à escolha de mulheres brancas ou negras pelos homens, mas não se percebe a preocupação com os motivos pelos quais as mulheres escolhem homens brancos ou negros como parceiros.
Hoje percebo ter sido escolhida e não escolher e ter me prestado a isso, foi o bote certeiro do
racismo nosso de cada dia.
No meu relacionamento mais longo e traumático junto a um homem branco, visivelmente para quem via de fora, procurava um motivo plausível daquela relação e acabava sempre associando ao lado pejorativo de “mulher negra fogosa”, portanto, era vantajoso para aquele homem andar comigo em público, uma vez que ele era o “macho”, capaz de conter a preta “sensual”.
Quanto a mim, era frequentemente acusada pela população negra de não me relacionar com homens negros e amplamente mais assediada por homens brancos que pareciam estar esperando “a sua vez” comigo.
Nesse sentido, na cabeça bitolada das pessoas “o parceiro branco é transformado em instrumento tático, numa luta cuja estratégia é cumprir os ditames superegóicos ¹ calcados nos valores
hegemônicos da ideologia dominante (SOUZA, 1983), algo que caberia bem, não fosse o meu ex-parceiro o elo menos intelectualizado e interessante da relação.

A realidade ao seu lado foi de muitas vezes ser tratada por ele como se estivesse me fazendo um favor,
afinal, quanta “generosidade” teve de dispor para namorar comigo, uma negra (não é mesmo)?
Infelizmente, mesmo eu sendo uma pessoa com formação, muitos anos de militância e com uma intelectualidade construída para rejeitar qualquer relação racista, eu me sentia realmente inferior dentro de minha relação inter- racial.
Afinal, “numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade (hooks,2010).
De fato, havia em mim, uma força eficaz (que agora sei que é racismo) que me arremessava para os braços do meu algoz, de maneira muito cordata e convencida de daquele homem branco ser o meu amor, ainda que vez ou outra, ironizasse meu cabelo ou dissesse que o racismo havia acabado e portanto, minhas indagações sobre a luta antirracista fossem (segundo ele) “vitimismo”.
Mas não posso deixar quem leu estas mal traçadas linhas até aqui, sem um final feliz. Depois de uma “palmitagem” que custou boa parte da minha saúde mental, o tal inalcançável amor sorriu para mim novamente. Por mais que todas as dores e humilhações veladas, tenham, em conformidade com as ideias de hooks (2010), alterado a minha habilidade de amar.
Mesmo ferida e com a capacidade de amar afetada, me permiti “conhecer aquele lugar e estar amando” (hooks, 2010). Dei vazão à possibilidade de reconhecer em um homem negro, em um contexto o qual, de mim, ainda em diálogo com bell hooks (2010) as pessoas só queriam (e ainda querem) enfatizar minha capacidade de sobreviver e relegar aos meus sentimentos, lugar secundário.
Pensando meu amor com um homem negro sobre a perspectiva espacial que dialogue com a problemática do meu gênero, interseccionada com minha raça, o espaço é a esfera de configurações de resultados imprevisíveis, dentro de multiplicidades (MASSEY, 2008).
Se pensarmos que paradoxo é a proposição ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião concebida, a crença ordinária e compartilhada pela maioria, mulheres negras e homens negros, no espaço pensado pela branquitude, constroem paradoxalmente seu próprio espaço e são transgressores da lógica escravocrata , afinal, esta nos negou historicamente o direito de amar.
E nesse pacto, não necessariamente verbalizado, onde dois corpos negros subvertem a “ordem hegemônica” de querer viver amor, artigo essencialmente branco, encontrei um homem o qual me deu a chance de “escolher” dar e receber amor, inserindo, dessa forma em minha vida, a prática de dizer a outras pessoas negras que o amor é possível, pois, em uma sociedade regida pelo capital e pelo patriarcado, a nós negros, não é dada a oportunidade do amor (hooks, 2010).
No entanto, passado quadros de dor aguda e o entendimento ruptura e superação do sofrimento eterno, um coração preto pode ajudar a curar outro coração preto. Também temos o direito legítimo de reivindicar o amor romântico. Amor preto cura. Amor preto existe.
¹O superego é um conceito fundamental da teoria estrutural de Freud. O superego é uma parte da nossa mente (e da nossa personalidade), responsável pelos ditames morais.
Em síntese, para Freud, representaria o pai e tudo o que fosse normativo. Isto é, é no superego que está nossa renúncia do prazer em prol do benefício da vida coletiva em sociedade.
Referências bibliográficas
MASSEY, Dooren. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Trad. Hilda Pareto Maciel; Rogério Haesbaert. Rio de janeiro: Bertand Brasil, 2008. FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. 42. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
MOUITINHO, LAURA. Negociando com a adversidade: Negociando com a adversidade: Negociando com a adversidade: reflexões sobre “raça”, (homos)sexualidade e desigualdade social no Rio de Janeiro. In: Revista de estudos Feministas. Universidade Federal do Rio de Janeiro: 2001.
hooks, bell. Eu mulher negra, vivendo de amor, 2010. Disponível em: https://www.geledes.org.br/vivendo-de-amor/
SILVA, Joseli Maria. Fazendo geografias: pluriversalidades sobre gênero e sexualidades. In: SILVA, Joseli Maria (org.). Geografias subversivas: discursos sobre espaço, gênero e sexualidades. 1 ed. Ponta Grossa: Toda palavra, 2009. p. 25-54

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