Paralelo 29

JOSÉ RENATO: Trabalhar menos, viver melhor? O debate que o Brasil ainda evita

Foto: Valter Campanato, Agência Brasil
JOSÉ RENATO FERRAZ DA SILVEIRA – PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UFSM


Enquanto o mundo discute o fim da escala 6×1, alguns países já avançaram para uma pergunta ainda mais incômoda: cinco dias de trabalho por semana ainda fazem sentido?

No Brasil, a regra segue conhecida e rígida. Oito horas por dia, cinco ou seis vezes por semana. Para milhões de trabalhadores, porém, a jornada real vai muito além do contrato formal.

Mensagens fora do horário, metas inalcançáveis, horas extras não pagas e a sensação permanente de urgência fazem com que o trabalho invada o tempo que deveria ser de descanso.

Fronteira entre vida pessoal e profissional

A fronteira entre vida pessoal e profissional se dissolveu. E isso não é um detalhe. É parte central do problema. Em outros países, o debate já mudou de patamar. A questão deixou de ser apenas quantas horas se trabalha e passou a ser como o trabalho se encaixa na vida.

Produtividade deixou de ser medida pelo tempo sentado diante de uma tela e passou a ser avaliada por resultado, eficiência e qualidade. A pergunta que emerge é simples e desconfortável: trabalhamos tantas horas porque isso é necessário ou porque nos acostumamos assim?

Virada de chave na Noruega

A Noruega é um bom exemplo dessa virada de chave. A média semanal de trabalho gira em torno de 33,6 horas, e sair do escritório às 15h ou 16h faz parte da rotina.

Ainda assim, o país começou a testar a semana de quatro dias. O motivo não é queda de produtividade. É o reconhecimento de que o modelo atual, mesmo mais curto, começa a mostrar sinais de esgotamento.

A legislação norueguesa fixa o teto em 40 horas semanais, mas a prática costuma ficar bem abaixo disso. Trabalhadores têm direito a pelo menos 25 dias de férias por ano, licenças parentais longas e remuneradas e acesso amplo a creches.

Não por acaso, o país aparece com frequência entre os primeiros colocados em rankings de qualidade de vida, expectativa de vida e bem-estar social.

Aumento significativo de licenças médicas

Ainda assim, há uma contradição evidente. Nos últimos anos, a Noruega passou a registrar um aumento significativo nas licenças médicas, especialmente por estresse, ansiedade e outros transtornos mentais.

Em 2024, figurou entre os países com maiores índices de afastamento por licença médica no mundo. À primeira vista, isso parece ilógico. Menos horas de trabalho deveriam significar menos adoecimento. Mas os dados apontam para algo mais complexo.

O problema não está apenas na quantidade de horas, mas na intensidade do trabalho contemporâneo. A digitalização mantém profissionais conectados o tempo todo.

A cobrança por desempenho é constante. A responsabilidade individual cresce. O descanso existe no papel, mas a mente segue em alerta permanente. O resultado é o avanço do burnout mesmo em países com jornadas curtas.

Debate internacional

Esse cenário ajuda a explicar por que o debate internacional começa a se deslocar do “trabalhar menos” para o “trabalhar melhor”.

É nesse contexto que ganha força a proposta da semana de quatro dias. Na Noruega, o movimento 4 Day Week Norway defende a adoção do modelo 100-80-100: 100% do salário, 80% do tempo de trabalho e 100% da produtividade. A ideia é atraente, mas não simples.

Concentrar a mesma produção em menos tempo exige reorganização profunda de processos, redução de reuniões improdutivas e revisão de prioridades.

Na prática, os quatro dias tendem a se tornar mais intensos. A margem para erros diminui. Nem todos os setores conseguem adotar o modelo com facilidade. Saúde, transporte, indústria e serviços presenciais enfrentam limites concretos.

E no Brasil…

No Brasil, esse debate ainda soa distante. Aqui, a discussão permanece centrada no básico: o combate à escala 6×1. Trabalhar seis dias para descansar apenas um segue sendo uma das expressões mais duras da precarização do trabalho no país.

Essa lógica afeta principalmente trabalhadores do comércio, da indústria, do telemarketing e dos serviços essenciais. O impacto é direto sobre saúde, renda e vida familiar.

Reduzir a jornada não é apenas uma pauta social. É também uma política econômica. Estudos do DIEESE indicam que a redução da jornada para cerca de 40 horas semanais poderia gerar entre 2 e 3 milhões de empregos.

Pesquisas mais recentes do CESIT-Unicamp apontam que uma jornada próxima de 36 horas semanais poderia criar até 4,5 milhões de postos de trabalho, além de ganhos de produtividade em setores como comércio e serviços.

Os efeitos também recaem sobre a saúde pública. A Organização Internacional do Trabalho alerta que jornadas extensas elevam o risco de doenças cardiovasculares, transtornos mentais e acidentes de trabalho. Menos horas tendem a significar menos afastamentos, menos internações e menos custos para o sistema público de saúde.

Campanha volta às ruas

Não é por acaso que a luta contra a escala 6×1 voltou às ruas, às greves e às campanhas salariais. A pressão recoloca no centro do debate a redução da jornada sem redução salarial como instrumento de geração de empregos e ampliação da dignidade do trabalho.

A resistência empresarial, contudo, permanece forte. Jornadas longas ainda significam maior extração de valor e margens mais amplas.

Por isso, a discussão sobre o tempo de trabalho vai além da organização do expediente. Ela revela um embate mais profundo sobre o modelo de sociedade que se deseja construir.

No fundo, o debate não é apenas sobre trabalhar quatro, cinco ou seis dias. É sobre redefinir o papel do trabalho em uma economia marcada por tecnologia, produtividade e exaustão.

Trabalhar menos não garante, por si só, viver melhor. Mas continuar trabalhando demais, definitivamente, já mostrou seus limites.

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