FABRICIO SILVEIRA
Professor universitário, pós-doutor em Comunicação.
Judeu alemão emigrado no final dos anos 1930 para os Estados Unidos, Theodor Adorno (1903-1969) se notabilizou como um dos filósofos mais importantes do século passado.
Seus esforços de adaptação da teoria marxista – centrada na crítica sistêmica da economia capitalista – para compreender a modernização cultural em voga no início do século XX trouxeram-lhe renome e respeito internacionais. Adorno se tornou um dos autores emblemáticos da chamada Teoria Crítica.
A discussão sobre o fascismo se encontra distribuída ao longo de seus inúmeros escritos. Em razão de sua experiência pessoal como exilado e perseguido pelo nazismo, esse se tornou um de seus temas recorrentes.
FABRÍCIO SILVEIRA – Opinião: O eterno retorno do fascismo (I)
Adorno aborda o fascismo através de múltiplas modalizações: às vezes, conjugando-o com o antissemitismo; noutras ocasiões, em associação com o nacional-socialismo alemão, tendo Hitler como líder carismático; noutras vezes, ainda, estabelecendo-o como contraponto ao fenômeno então emergente (à sua época) das comunicações de massa.
O que unifica essas angulações todas, dando-lhes um eixo comum, é a adoção (não exclusiva) da psicanálise freudiana como instrumental teórico e o foco muito detido em torno da caracterização da “personalidade autoritária”.
Para Adorno, mais do que um sistema político ou uma modalidade circunscrita de governo, o fascismo diria respeito a uma “economia libidinal”, a uma patologia psíquica alçada à condição de sistema de ações, afetos e agenciamentos políticos.
FABRICIO SILVEIRA – Opinião: Tolos, fraudes e militantes
Um dos itens mais conhecidos de sua produção leva justamente este título – A Personalidade Autoritária – e se propõe a elaborar uma escala capaz de dimensionar a disposição dos indivíduos em acatar os apelos de um líder autoritário qualquer. Essa escala se chama “escala F” (“F” de fascismo, por suposto).
Desenvolvido na transição para a década de 1950, numa investigação conjunta com um grupo de pesquisadores norte-americanos, lotados na Universidade de Berkeley, esse estudo se tornou um clássico insubstituível do pensamento social dos últimos cem anos.
A “escala F” seria um instrumento de aferição de índices de narcisismo, preconceitos morais e submissão acrítica à ordem burocrática e à racionalidade tecnológica.
Jornalista, roqueiro e escritor de Santa Maria estreia no Paralelo
Tal método permitiria reconhecer relações entre disposições psíquicas – manias, neuroses e paranóias – e estruturas ou contextos sociais mais amplos (conjunturas históricas, políticas e econômicas).
Como todo procedimento científico, no entanto, esse expediente nunca pretendeu à perfeição ou ao esgotamento completo do assunto.
Os próprios pesquisadores envolvidos se questionaram sobre os riscos metodológicos que haviam assumido (e que precisariam, logo à frente, resolver) – quais sejam: quantificar questões complexas e dados qualitativos; acreditar demasiadamente em determinações psicométricas; adotar uma posição objetiva (uma suposta neutralidade científica) diante do preconceito, da irracionalidade e da abjeção sociais.
SABRINA SIQUEIRA – Opinião: Se há fatalismo nos nomes
Adorno chegou, a partir daí, à sistematização de que o fascismo exploraria:
1. a forte adesão às convenções e ao status quo;
2. o comportamento submisso;
3. a agressão autoritária;
4. a oposição a tudo que possa parecer “subjetivo” (a criação artística, por exemplo);
5. superstições de todo tipo;
6. a estereotipização (a compreensão da complexidade da vida social em termos de estereótipos, polarizações simplistas e esquemas cognitivos empobrecidos, de baixíssima plasticidade);
GILSON PIBER – Opinião: A negligência mata
7. a afirmação exagerada da força e da resistência físicas;
8. a destrutividade;
9. o cinismo;
10. a hostilidade ao diferente (ao estrangeiro e a tudo aquilo que parece exótico);
11. a projeção de impulsos;
e, por fim,
12. a preocupação exagerada com o sexo.
Como vemos, trata-se de um autor decisivo e mais atual do que nunca. Que o leitor possa tê-lo em conta todos os dias, ao ligar a televisão, ao abrir os jornais ou visitar os grupos de WhatsApp de sua família.

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