BELINA PEREIRA – Psicóloga
O racismo parte da ficção de que existem diversas raças humanas, cada uma com suas particularidades e, evidentemente, com algumas superiores às outras. Buscamos, então, amparo na ciência biológica na tentativa de superar esta ficção. Para tal, uma raça seria uma população de espécie diferente geográfica, morfológica ou geneticamente de outras populações da mesma espécie.
A questão é que nós, humanos, não apresentamos uma quantidade significativa de diferenças para que se possa considerar a existência de diferentes raças, até mesmo porque não existe um consenso a respeito do grau de diferenciação necessária para se chegar a tal desfecho.
Além disso, as maiores diferenças se encontram exatamente entre pessoas do mesmo grupo étnico, o que desfavorece a ideia de raça. Então, não seria mais correto falar de grupos sociais, com culturas diferentes, ou etnias?
Como manobra para disfarçar esta infeliz realidade de preconceito e exclusão, ao qual está subjugado o povo negro, deu-se um jeito de criar o mito da democracia racial, criado com base em interpretações da obra de Gilberto Freyre – Casa Grande e Senzala – que apontava a existência de oportunidades econômicas e sociais para negros e brancos, o que também foi desconstruído por estatísticas, visto que os negros recebem, em média, salários menores que os brancos e não possuem as mesmas chances de acesso aos estudos, como se vê nas universidades, principalmente públicas, cujos estudantes são, em sua maioria, brancos.
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Devo acrescentar ainda que, por conta disso, poucos chegam a cargos de direção ou chefia. Sem contar que a mulher negra, para se colocar no mercado de trabalho, tem que enfrentar muitas barreiras raciais, o que termina por desembocar em sofrimento social.
O racismo no Brasil é um fato histórico-social fundado na necessidade de a elite dominante perpetuar o seu poder, tanto durante a escravidão quanto depois dela, justificando um preconceito que se fundamenta somente em estereótipos, mas que ganha força quando o sujeito pretende se diferenciar e aumentar a sua autoestima pela degradação do outro. Além disto, este preconceito está a serviço de inúmeras formas de exploração, enraizadas nesta pseudo supremacia racial, ainda que haja um discurso de igualdade através da democracia racial.
O nosso cotidiano espelha este preconceito ao testemunharmos pessoas negras e pardas serem xingadas, ofendidas, humilhadas e até assassinadas pelos seus pares, tendo os seus direitos surrupiados, simplesmente porque têm a pele escura, o cabelo encaracolado ou cabelo ‘ruim”, como é considerado por muitos, ou outras características étnicas.
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O sofrimento psíquico ao qual estas pessoas são jogadas as levam a recorrer aos inúmeros artifícios desenvolvidos pela indústria da beleza como forma de embranquecimento e a oportunidade de serem aceitas e reconhecidas como cidadãos de bem. Tudo isso termina por revelar o lado perverso de uma parcela da nossa sociedade.
A boa nova é que, felizmente, existem muitos de nós que lutam pelo reconhecimento e a importância da diversidade em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
É preciso, pois, entender que o Brasil tem uma dívida histórica com a população negra, que viveu quase quatrocentos anos como objeto de trabalho e moeda de troca e que, de uma hora para outra, com a libertação, se viu desamparada e vulnerável, pois foi jogada a sua própria sorte.
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Ainda que muitos tenham batalhado e conquistado a duras penas o seu espaço, mesmo assim, muitas vezes, não são aceitos, sendo olhados com desconfiança, como se fosse impossível a pessoa negra ser um empresário(a), um médico(a), morar em um condomínio de luxo, usar roupas caras, ter um carro, viajar para o exterior e por aí afora.
Bem se vê que ainda há muito por fazer para que o povo negro esteja em pé de igualdade para com os brancos. E o preconceito existente infelizmente é uma barreira que impede tal possibilidade. Pensemos nisso.

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