ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA – Escritor
Ao chegar no estacionamento, percebo que um vivente colocou o carro ocupando duas vagas. Coisa que me deixa incomodado. E duas vagas destinada a idosos.
E o cidadão era perfeccionista, pois colocou o carro ocupando duas vagas como se tivesse medido. E o veículo não estava enviesado, coisa de mestre na direção.
Pensei em fotografar e, posteriormente, colocar nas redes e xingar os motoristas mal-educados. Mas logo percebi que o cara era idoso, e sabe-se lá qual seria o motivo.
Talvez fosse um idoso com comorbidades, precisasse de mais espaço para se locomover e havia ocupado as duas vagas. Imaginei um ancião com pouco discernimento de espaço e tempo. Talvez alguma deficiência de visão mais acentuada, falta de coordenação motora.
Estava tentando buscar a justificativa para um potente carrão preto ocupar duas vagas. A bandeira do Brasil no vidro do carro me causou um certo desconforto. Quem diria, a bandeira verde-amarela causando desconforto… novos tempos. Mas a gente não pode fazer prejulgamentos e fui tratar da vida.
Peguei o carrinho e fui às compras. Só gêneros de primeira necessidade: pão, queijo, presunto, frutas, vinhos e uma cerveja artesanal para me acompanhar no próximo jogo do Colorado.
Paguei minha conta e pedi CPF na nota. Depois que descobri que abate no IPVA sempre peço a nota fiscal. [150 notas até outubro]. Fica a dica.
O potente carrão preto ainda estava lá a ocupar as duas vagas para idosos. Havia um casal arrumando as compras no porta-malas e batendo boca.
Absurdo e pouca vergonha foram as palavras que ouvi da boca da madame dona do potente carrão preto. Acho que discutiam sobre o preço da mortadela, dos pés de galinha ou da ração para os pets.
Aí veio a minha indignação. O sangue subiu. São nestas horas que lastimo não ser um barraqueiro e botar a boca no trombone. Dedo em riste e fazendo escândalo.
O diabinho que está empoleirado no meu ombro esquerdo dizia “vai lá e xinga o casal de mal-educados. Xinga! Xinga! Xinga! Vai lá o… bunda-mole!”.
Mas o anjinho ancião que habita meu ombro direito retrucava “que nada, vai para casa e vai cevar um mate. Esquece este imbróglio. Não te mete em encrenca!”.
O meu anjinho ancião sempre vence o diabinho. Mas eu adoro o diabinho. Ele me proporciona alguns arrependimentos por não ter seguido seus conselhos de pé de ouvido.
Entro no carro e dou a partida. E o jovem casal – que ocupou duas vagas de idosos no estacionamento – continuava discutindo sobre o preço da mortadela ou da ração para os pets.

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