ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA – Escritor
Independentemente do nosso posicionamento político, podemos afirmar que Pepe Mujica é uma personalidade deste nosso mundo contemporâneo que é digna de admiração.
Neste “Uma ovelha negra no poder – confissões e intimidades de Pepe Mujica”, o ex-presidente uruguaio terceiriza suas memórias a uma dupla de jornalistas: Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz.
O resultado destes encontros são relatos memoráveis de uma vida bem agitada e perigosa. Nestas 264 páginas, Pepe expõe suas intimidades pessoais e ideológicas. E ranços políticos.
Mujica foi militante do grupo guerrilheiro Tupamaro, que combatia a ditadura no Uruguai. Esteve preso por mais de 13 anos. É avesso a protocolos e não usa gravatas. Diz o que vem em sua mente e não escolhe muito bem as palavras. Usa de forma corriqueira os palavrões. Afirma com certo orgulho que fala e não faz discurso vazio.
Por ser uma pessoa despojada de bens pessoais e de vaidades tornou-se popular no mundo todo. Conhecido como o presidente mais pobre do planeta, se tornou líder popular e foi recebido pelos mais poderosos e ricos do mundo.
“O protocolo, a liturgia do poder e todas estas idiotices não me importam.”
Um detalhe que desconhecia e que explica este jeito avesso às formalidades é que Pepe Mujica é anarquista. É inimaginável um anarquista com poder. Com esta postura comprou algumas brigas com a esquerda tradicional. Nas reuniões com parceiros e com adversários ideológicos afirma que sempre se sentia um sapo de outro poço.
Tornou-se crítico da URSS. Afirma que em Moscou não havia o pensar diferente. Os dissidentes, com sorte, iam para a Sibéria. Ainda hoje é leitor de Rosa Luxemburgo, dando-lhe a razão com a História.
Com relação à leitura, afirma que é preciso ler a História. Para isso, recorre a biografias. As memórias de Trotsky e Churchill são presença frequente em suas reflexões: a água e o azeite, como ele gosta de dizer.
Certa feita, diante de uma possível greve da polícia, fez chegar aos líderes a seguinte informação: se os policiais fizerem uma greve não vai durar um dia sequer, coloco o Exército nas ruas. Este é o Pepe!
Sua fama cresceu tanto que foi incluído na lista das 100 personalidades mais influentes de 2013.

Sobre a Fifa, afirmou em defesa de Suarez, após aquela dentada na orelha do adversário: um bando de velhos filhos da puta.
“Toda esta parafernália ao redor do presidente, que enfiem no cu. Não combina comigo.” Mujica não mede as palavras.
Outra feita escapou um “Esta velha é pior que o zarolho”. Disse referindo-se a Cristina Kirchner e seu falecido esposo. A repercussão ficou por conta da internet como um rastilho de pólvora.
Para Mujica, a Venezuela é, há muitas décadas, um dos países mais corruptos do mundo. Ele achava que Chávez o considerava um velho meio gagá porque questionava constantemente sua ideia de socialismo.
Mujica cruzou o mundo tentando mudar o protagonismo de seu país. Ex-guerrilheiro que em dois anos como presidente do Uruguai chamou atenção de Obama, Fidel, do Papa, Putin e tantos outros líderes e que ficou conhecido entre os camponeses do Equador, indígenas da Bolívia e Peru e os nórdicos da Finlândia. Evidentemente, tem Lula e Dilma em alta consideração.
Pepe Mujica tem amigos em todos os botecos de Montevidéu. Pois é preciso ouvir as pessoas, que, por vezes, falam alguma coisa que tem sentido. É fã do grupo Los Olimareños e não troca sua chácara por nada. Só sai de lá quando esticar as canelas – afirma.
Adora lugares que você olha a distância e diz: parece que ali há alguém. Pepe Mujica adora a solidão do campo. Um pampeano…
Uma ovelha negra no poder: um livro em que a cada três ou quatro páginas a gente faz uma marcação.
OBS.: No Brasil, recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Com direito a estátua.

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