BRUNA OSÓRIO PIZARRO – PSICÓLOGA E PSICANALISTA
A analista empresta o corpo para a escuta. Emprestar o corpo é dar espaço. Mas para onde se acomodam ou se desacomodam o que abriu espaço para a história do outro? A analista lembra que é momentâneo e que pode ser reposicionado assim que o ato do encontro e da escuta acontecer. Será?
Chego em minha análise, espaço imprescindível para a analista, inclusive a se autorizar a ser analista. Dor e mais dor. Identifico que não é do corpo, mas no corpo. Antes de chegar até a análise, junto forças para conseguir ir. Sei que as dores são de palavras que estão entaladas na garganta, mesmo que ainda não estejam prontas para serem ditas. Também sei que as palavras virão, talvez ainda em meio a uma confusão, não linear, como é a vida. Mas, o quê quero falar mesmo? O que é estar pronta?
Em análise, peço suporte para o meu corpo, ou para as palavras que estavam pesadas demais para serem sustentadas sozinhas naquele/meu corpo. Eu só tinha uma certeza, quando juntei as forças para ir: que as palavras trariam alívio ao corpo.
Talvez essa certeza venha do lugar de analista, por também ocupar essa função. Talvez, essa certeza venha do lugar de analisanda, que já identificava que o excesso se dava em meio a um trabalho – como analista, que mexe muito com o corpo e a materialidade da vida: a morte.
Este corpo, que se propõe a escutar histórias, mas não apenas. Este corpo que se implica com uma sociedade que vive uma eleição histórica, marcada pelo fascismo, com uma paranóia de um Comunismo – que já virou nome próprio, com letra maiúscula, como se estivesse dobrando a esquina.
Este corpo que não consegue mais fugir das suas perdas, dos seus lutos e muito menos do que a cidade de Santa Maria faz com a morte de 242 jovens em uma boate. O que resta disso tudo? É resto ou excesso? Ou só É?
O corpo da analista sustenta e é sustentado. Precisa da cumplicidade de um corpo que se move na sua frente. Que se faz presente. O corpo do Outro é tão imprescindível, quanto o nosso próprio corpo.
A materialidade da vida, procura Outro corpo para se apoiar. O corpo da analista empresta, dá espaço, acomoda, desacomoda, abre, fecha, reposiciona, posiciona. O corpo da analista sente, no corpo o que a vida apresenta. É um corpo vivo. O corpo da analista.

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