Depoimento de ex-comandante da PM do Distrito Federal à CPI revela mundo paralelo de ativistas apoiadores do ex-presidente Bolsonaro em Brasília
Em depoimento à CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmera Legislativa do Distrito Federal (DF), o coronel Jorge Eduardo Naime, ex-comandante de Operações da Polícia Militar (PM), revelou a existência de “um mundo paralelo” no acampamento bolsonarista de Brasília, que passava pelo recolhimento irregular de doações a ativista jurando ser de outro planeta.
Naime depôs nesta quinta-feira (16) e descreveu o que viu em visitas ao acampamento em frente ao Quartel General (GG) do Exército, na capital federal, de onde saiu a marcha de ativistas que invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro deste ano.
A exemplo de outras mobilizações em frente a quartéis no país, o acampamento de Brasília tinha como objetivo contestar o resultado da eleição presidencial e a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que derrotou o então presidente Jair Bolsonaro (PL).

CONFIRA O QUE DISSE O PM EM SEU DEPOIMENTO
A bolha
No depoimento à CPI, o oficial da Polícia Militar relatou que os golpistas do acampamento de Brasília viviam em uma espécie de bolha alimentados apenas com informações fornecidas pelos grupos que estavam no local. Nada de imprensa oficial por lá.
“Eles viviam em um mundo paralelo. Tive algumas vezes no acampamento, conversei com algumas pessoas. Teve um que me abordou lá e disse que era um extraterrestre, que estava ali infiltrado. Assim que o Exército tomasse (o poder), os extraterrestres iriam ajudar a tomar o poder. Só consumiam informações deles, estavam em uma bolha”, contou o coronel.

Máfia do Pix
De acordo com o ex-comandante, investigações haviam revelado várias irregularidades dentro do acampamento, como comércio ilegal e aluguel irregular de tendas.
Havia, ainda, segundo o coronel, a “Máfia do Pix”, em que pessoas que se intitulavam lideranças pediam a outros acampados que fizessem transferências via Pix para manter o funcionamento do acampamento.
Indícios de crimes graves
Ainda de acordo com o coronel da PM, havia agentes de inteligência, incluindo do próprio Exército, no acampamento. Entre as supostas irregularidades, além de como comércio ilegal, que envolvia aluguel de tendas para ambulantes, havia indícios de tráfico de drogas, prostituição e até denúncia de estupro.
Proteção do Exército
Segundo Naime afirmou à CPI, o Exército protegeu os acampados, entre eles as pessoas acusadas de vandalismo e terrorismo, após a invasão da sede dos três poderes, no dia 8 de janeiro.
No momento da prisão dos que voltavam da Esplanada, a PM se deparou com uma “linha de choque montada com blindados e, por (mais) interessante que parecesse, eles não estavam voltados para o acampamento. Eles estavam voltados para a PM, protegendo o acampamento”.
Naime também afirmou que participou de diversas reuniões com o Comando do Exército para a retirada do acampamento, mas as ações eram sempre canceladas. O ex-comandante disse que chegou a colocar 500 homens à disposição, no dia 29 de dezembro, para retirar os manifestantes acampados.
“Houve orientação expressa em dezembro para que não fosse permitida a retirada de pessoas no acampamento no Quartel General do Exército”, afirmou o PM, que está preso.

Santa-marienses entre os manifestantes
Assim que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Lula sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL), que buscava a reeleição, em 30 de outubro, bolsonaristas começaram a se mobilizar.
A exemplo de Bolsonaro, eles criticavam as urnas eletrônicas, afirmando que o resultado foi fraudado. Os manifestantes também pediam uma intervenção militar no país.
Nas manifestações que acabaram em invasões em 8 de janeiro, havia pessoas de Santa Maria e de cidades da Região Central, como São Martinho da Serra e São Pedro do Sul. Pelo menos 12 foram presas, sendo que, até esta quinta-feira, pelo menos duas continuavam em presídios da capital federal.
A maioria dos bolsonaristas da Região Central do Rio Grande do Sul chegou ao acampamento de Brasília a dois dias da invasão das sedes dos Três Poderes. Eles negam participação nas depedrações.
O acampamento em frente ao QG do Exército na capital federal começou bem antes dos atos de 8 de janeiro e não foi o único no país. Em Santa Maria, o acampamento foi montado em frente ao quartel da 6ª Brigada de Infantaria Blindada, na Avenida Borges de Medeiros.
(Com informações de Mario Espinheira e Francisco Espínola, da Agência da Câmara Legislativa do Distrio Federal)

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