Cassado pela ditadura militar, cardiologista passou de crítico contundente ao regime militar a apoiador de posturas bolsonaristas
O médico cardiologista de Santa Maria Eduardo Rolim, de 92 anos, virou alvo de uma enxurrada de críticas e notas de repúdio nas redes sociais depois ter feito apologia ao estupro no programa Sala de Debate da Rádio DCN e da TV Diário na última quinta-feira (27).
Diante de pressões, a emissora anunciou que o médico não faz mais parte do programa, com o qual colaborou nos últimos anos. Uma das notas é assinada por 40 entidades, entre coletivos, sindicatos e movimentos sociais ligados à defesa das mulheres.
A nota ainda não é oficial, mas já está sendo compartilhada pelas entidades. A versão final será lida na quinta-feira (4), na Tribuna Livre da Câmara de Vereadores.
As declarações do médico ganharam repercussão principalmente pelo fato de o médico ser uma pessoa bastante conhecida em Santa Maria e por ter um passado ligado à luta contra a ditadura militar.
Formado em medicina em 1956 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, Eduardo Martins de Oliveira Rolim é o médico mais antigo ainda atuante em Santa Maria e um dos mais longevos do Rio Grande do Sul e do Brasil.
Perseguido e cassado pela ditadura militar
De família tradicional da cidade, Eduardo Rolim entrou na política e se elegeu vereador duas vezes, a primeira pelo PTB (1960 a 1963), e a segunda, pelo MDB, já na ditadura militar (1964-1968). O pai dele, Luiz Alves Rolim Sobrinho, foi prefeito de Santa Maria entre 1969 e 1973, já na ditadura.
Por sua vinculação ao trabalhismo e por seus discursos contundentes contra o regime ditatorial na Câmara de Vereadores, o médico cardiologista teve seu mandado cassado ao mesmo tempo em que foi demitido da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde lecionava no curso de medicina. Taxado de subversivo, ele chegou a ser proibido de entrar no Campus.
Por conta da cassação dos direitos políticos, o médico teve sua carreira política prejudicada. Aos 36 anos, em 1966, Rolim era candidato a deputado federal pelo MDB, com chance de se eleger, porém, a cinco dias do pleito, foi impedido de concorrer.
Reintegração à UFSM depois de duas décadas
O médico só foi reintegrado à UFSM em 1987, quando voltou a lecionar. A partir daí, ele chegou à direção do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm). Também dirigiu a antiga Cooperativa Popular de Consumo de Santa Maria (Cooperlar), que chegou a ter uma rede de supermercados na cidade. A Cooperlar faliu na gestão do médico, nos anos 90.
Sempre vinculado ao trabalhismo, Rolim seguiu o grupo de Leonel Brizola e fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1979, quando o regime militar promoveu uma reforma que acabou com o bipartidarismo implantado pelos próprios militares.
Em uma entrevista feita pelo jornalista Fritz R. Nunes, publicada no site da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm) em 30 de junho de 2015, Rolim fala do seu passado, do enfrentamento à ditadura militar, das perseguições sofridas e da sua reintegração.
O ex-vereador e agora professor aposentado da UFSM chegou a depor na Comissão da Verdade instaurada pela instituição para tratar de perseguições durante os anos de chumbo. Confira abaixo, o vídeo com a entrevista de Eduardo Rolim produzido por Ivan Lautert e Rafael Balbueno para a Sedufsm.
Do trabalhismo ao bolsonarismo
Sempre vinculado ao trabalhismo, o médico chegou a presidir o PDT local em duas ocasiões. Nos últimos anos, antigos companheiros de PDT começaram a perceber mudanças nas posições políticas de Rolim, manifestadas principalmente em artigos publicados na imprensa local, em debates e em entrevistas.
Alguns chegam a afirmar que o ex-vereador cassado pela ditadura militar traíra seu passado e tornara-se seguidor do então presidente Jair Bolsonaro, defensor ferrenho do regime implantado em 1964.
O auge do rompimento do médico e militante trabalhista com seu passado vinculado à centro-esquerda ocorreu nos primeiros anos da pandemia de covid-19, quando ele passou a defender publicamente o chamado Kit Covid no tratamento de pacientes que se infectaram com o coronavírus.
UMA BREVE BIOGRAFIA DO MÉDICO E POLÍTICO
- Formou-se em medicina em 1956 pela UFRGS, em Porto Alegre
- Foi vereador duas vezes em Santa Maria: 1960 a 1963 pelo PTB, reelegendo em 1964 pelo MDB
- Teve o mandato de vereador cassado e foi demitido da função de professor da UFSM
- Foi reintegrado à UFSM em 1987, já na redemocratização, e foi diretor do Hospital Universitário de Santa Maria (Husm) de 1990 a 1994
- Fundador do PDT em Santa Maria, presidiu o partido pelo menos duas vezes na cidade
O que vem causando indignação
A indignação com o médico ocorreu depois que ele participou de um debate sobre o caso envolvendo o ex-jogador Cuca, preso por estuprar uma adolescente de 13 anos, em 1987, em Berna, na Suiça, juntamente com os também jogadores do Grêmio Eduardo Hamester, Henrique Etges e Fernando Castoldi. O caso Cuca voltou ao noticiário depois que o Corinthians enfrentou uma onde de protestos contra a contratação do agora treinador, o que levou o clube a demiti-lo.
Em sua intervenção no Sala de Debate, Rolim usou um argumento supostamente científico para respaldar sua posição, admitida por ele próprio como “politicamente incorreta”.
Conforme o médico, a maioria dos estupros ocorreriam com o consentimento da vítima. Isso porque o corpo humano tem um músculo que se fecha de tal modo que nenhum homem conseguiria abrir as pernas de uma mulher sem consentimento.
“Esse músculo é conhecido como o guardião da virgindade. Porque a força de um homem não consegue abrir as pernas de uma mulher que esteja contraída. Falo isso para dizer que muitas vezes o estupro é consentido”, afirmou o médico.
“Homens seriam vítimas”, disse debatedor
Em outra fala, no mesmo programa, o médico santa-mariense disse que, na maioria dos casos, os homens acusados de estupro seriam, “na verdade, vítimas das mulheres” que os acusam. Ele referia-se a celebridades, como os ex-jogadores Cuca e Robinho.
Diante dos absurdos, o âncora do programa, jornalista Claudemir Pereira, advertiu o médico, dizendo que ele estava causando constrangimento aos participantes do Sala de Debate.
A advogada Ingrid Hardok era a única mulher que participava do Sala de Debates, que tinha ainda como debatedores o advogado Giorgio Forgiarini, os professores de Direito Mauro Cervi e Leonardo Santiago, e o administrador de empresas Ruy Giffoni.
Grupo de comunicação afastou colaborador

Em sua primeira manifestação sobre o caso, depois da repercussão negativa, o Grupo Diário emitiu uma nota afirmando que a opinião de Rolim não representa o pensamento da empresa.
Depois, em uma segunda nota, o Grupo Diário pede desculpas às mulheres e informa que o médico não faz mais parte do programa Sala de Debates.
PRIMEIRA MANIFSTAÇÃO DO GRUPO DIÁRIO
“Gostaríamos de deixar claro que a opinião do doutor Eduardo Rolim é uma opinião do debatedor. É longe disso a opinião do nosso programa. Ao contrário, nós temos quase 21 anos de história de espaço democrático, em que todos os debatedores sempre falaram o que quiseram, inclusive ele próprio, que seguidamente reclamou de censura no próprio programa, mas sempre pôde falar o que quis no ar. ”
SEGUNDA MANIFESTAÇÃO DO GRUPO DIÁRIO
“O Grupo Diário informa que o médico Eduardo Rolim não participa mais do time de debatedores do programa Sala de Debate, da TV Diário e Rádio CDN (93.5 FM).
O Grupo Diário pede desculpas à advogada Ingrid Hardok, que estava no programa, e às mulheres que se sentiram agredidas ou ofendidas e não compactua com as falas do médico Eduardo Rolim. O Grupo agradece aos mais de 10 anos em que o médico participou do programa.”
NOTAS DE REPÚDIO E MANIFESTAÇÕES CONTRÁRIAS
“A cultura do estupro é amplamente presente na nossa sociedade e se revela quando características físicas e comportamentais das vítimas são escrutinadas, fazendo que mulheres sejam acusadas de provocarem ou consentirem com a prática do estupro.
Essa cultura é reforçada por falas machistas, ultrapassadas e absolutamente inadequadas como a do Dr Eduardo Rolim do programa Sala de Debate do Diário na edição das 12h do dia 27/04/2023, a qual se repudia na sua íntegra. (Trecho de Nota de Repúdio da OAB/SM)
POST DA ADVOGADA RENATA QUARTIERO
“Combater a cultura do estupro implica estarmos atentos a toda e qualquer atitude cotidiana que agride a liberdade sexual da mulher. As duas palavras-chaves que auxiliam nesse processo são: consenso e respeito. Precisamos respeitar mais a mulher enquanto indivíduo, enquanto ser humano que ela é. Com seus desejos, medos, ambições e sonhos.” (Trecho de post da advogada Renata Quartiero)
MANIFESTO DE REPÚDIO DA VEREADORA LUCI DUARTES, TIA DA MOTO (PDT)
Declarações como estas merecem nossa total repulsa. E me envergonho mais ainda, como política, de esse senhor fazer parte dos quadros partidários que eu pertenço. Até por ter a certeza que esse não é o pensamento e muito menos fala de meus companheiros brizolistas. (Trecho e nota da vereadora Professora Luci Tia da Moto)
POST DO DEPUTADO ESTADUAL VALDECI OLIVEIRA (PT)
“NÃO SE PASSA PANO PARA O ESTUPRO! Nosso repúdio a toda e qualquer tentativa de se relativizar, justificar ou contemporizar a horrenda e monstruosa prática do estupro.
Por muito tempo, as agressões sexuais e os atos sexuais sem consentimento de uma das partes foram banalizados na nossa sociedade, o que só fez multiplicar a ocorrência desse tipo de crime selvagem e covarde, que vitimou e vitima principalmente as nossas meninas e mulheres. Basta de estupros, basta de estupradores impunes.”
Nota de repúdio coletiva
“Nós, mulheres de vários segmentos culturais e sociais integrantes das entidades que assinam esta carta, juntamente com nossos apoiadores, viemos à público manifestar completo repúdio ao ocorrido no Programa Sala de Debate do Grupo Diário de Santa Maria, no dia 27 de abril de 2023. Neste, o comentarista e médico aposentado Eduardo Rolim, fazendo uso de seu título, afirmou que o crime de estupro nem sempre se configura, pois, a vítima “teria condições físico-musculares de o impedir”.
A grave situação descrita acima merece o nosso repúdio e nossa veemente e intransigente defesa dos direitos e da dignidade de quaisquer mulheres, crianças, pessoas do espectro LGBTQIAPN+ e mesmo homens que tenham sido vítimas de violência sexual.
No dia 28 de abril, a crescente mobilização de mulheres e entidades, de forma individual e coletiva, levou o Grupo Diário a emitir notas sucessivas. Primeiro, defendendo a “liberdade de expressão” e emitindo posicionamento contra a fala de seu comentarista. E, por fim, notificando ao público que o sr. Eduardo Rolim foi afastado de suas atividades como comentarista. Contudo, a emissora agradeceu pelos anos de atuação junto ao canal de comunicação, sem dizer nenhuma palavra de desculpas a sua convidada Ingrid Fuchs.
A nota é assinada por 40 entidades, entre sindicatos, entidades ligadas à defesa das mulheres, coletivos e movimentos sociais. A íntegra pode ser lida aqui.
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