LOUISE DA SILVEIRA – LICENCIADA EM LETRAS PELA UFN E MESTRA EM GEOGRAFIA PELA UFSM
Nascemos, enfiam-nos uma puta na boca e tiram a liberdade dos nossos pés
Já perguntaram para uma mulher de mais de 50 anos o que é uma puta? Se não, façam. Muitas serão as definições. Moro com um mulher de 59 anos. “Mulher deve se dar o respeito”, é um discurso que escutei várias vezes da boca dela. Outros momentos, escutei dela e também de tias, amigas , vizinhas, etc que:
“Mulher na rua depois da meia noite, pediu para levar.”
“ Mulher de roupa curta, tem mais é que ser assediada.”
“Mulher apanhou do marido e não saiu da situação por falta de vergonha na cara.”
Ainda acima de tudo isso, a puta. Nenhuma de nós pode falar com a puta, imitar a puta, gostar da puta, ser a puta. A puta só é puta, porque alguém lhe vigia a “conduta”.
Transa no primeiro encontro? Puta. Teve filh@s sem casar? Puta. Gosta de sexo? Puta. Publica uma foto em que se achou bonita? Puta. Usa batom vermelho e decote? Puta. Se ri alto?
Sentou sozinha em um bar? Puta. Se ficou viúva e arrumou um namorado? Puta. Acabou um relacionamento recentemente e já é vista com outro? Puta. Traiu o parceiro? Puta, puta, bem puta.
A puta nos é empurrada goela abaixo, no berço. Imediatamente nos amarram os pés. Nos negam a liberdade. E a liberdade, via de regra, não é só sexual. Limitam nossos passos. Acorrentam nossos sonhos. Determinam um roteiro o qual não idealizamos e nele, a puta é ameaça a “ordem”.
Na minha casa, puta é proibida. Mulher aqui não é puta. Mas não por moralismo. Porque puta, na verdade não existe. Foi inventada, tal qual o diabo.
Liberdade sim. Amamentei nos seios minhas filhas com liberdade. Coloco liberdade no café de minha mãe todos os dias. Tomo banho de liberdade nas manhãs.
Compreendi: a liberdade é a antagonista da puta. Fantasiaram a mulher livre de puta, só para ela perder a chave dos cadeados visíveis e invisíveis. Rotularam-me puta. Rasguei o rótulo. E nessa nudez, percebi azas nas costas. Livre. Apenas livre.
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