LOUISE DA SILVEIRA – LICENCIADA EM LETRAS PELA UFN E MESTRA EM GEOGRAFIA PELA UFSM
A apropriação cultural vai além de “pode ou não pode”. Vou explicar. Toda vez que se inicia
uma conversa com alguma pessoa branca sobre apropriação cultural (até mesmo com os progressistas) percebo desconforto, além de perguntas aparentemente inocentes do tipo: “por que não posso usar
turbante?”; “mas eu adoro trança!”; “acho lindo os trajes africanos”; e por aí vai.
Há uma perversidade, sobretudo discursiva, a qual não deseja, conforme apontou Rodney Wiliian (2019), criticar o colonialismo, a aculturação e o aniquilamento dos costumes das/os afrodescendentes, submetidas/os ao longo do regime escravocrata brasileiro, a partir de uma perspectiva histórico-cultural.
O autor explica que a apropriação cultural acontece quando elementos específicos de uma cultura são adotados fora de seu contexto e sem os seus significados particulares e essa, ocorre nos diversos âmbitos da vida humana (artes, linguagem, na religiosidade etc.).
Não é razoável, elogiar ou reproduzir um penteado afro (não tendo uma identidade negra), por exemplo, ao mesmo tempo que há muitos apelidos pejorativos à estrutura/textura desse mesmo cabelo.
Aqui posso citar: cabelo duro, cabelo pixaim, a famosa esponja de aço (a qual não citarei o nome), dentre outros. Nesse sentido, é bastante contraditório, também, ter uma imagem de uma entidade africana pendurada na parede, mas insinuar que as religiões de matriz africana são do diabo (invenção cristã).
Ou então, usar colares e brincos de origem africana, mas no mercado de trabalho exigir das funcionárias negras adornos “discretos”.
Embora, em conformidade com as ideias de Rodney Willian (2019), nenhuma sociedade seja absolutamente homogênea, portanto, a tendência seja os padrões variarem em razão de diferentes fatores, como gênero, faixa etária, religião e etnicidades, seus membros tendem a agir de acordo com as normas do grupo, expressando assim seus padrões de comportamento e seus costumes.
O Brasil, em suas proporções continentais, apresenta uma diversidade racial, religiosa, (etc) também produz uma infinidade de padrões culturais que dialogam, convergem, mas também contrastam (WILLIAN, 2019).
E estes padrões, não se pode alienar, são ainda arreigados em um país que tem em sua história a supervalorização dos povos da cultura europeia e depreciação dos habitantes do continente africano.
É bastante comum recorrer à miscigenação para mascarar o racismo no Brasil. Como o país do carnaval é racista, sendo o samba o ritmo essencialmente negro?
Cabe trazer Kabengele Munanga (antropólogo e professor brasileiro-congolês), quando ele sentencia que “samba, feijoada, capoeira, candomblé, congado e diversos estilos musicais, inventados pelos negros nas condições assimétricas do Brasil colonial, são culturas negras manipuladas pelo discurso da ideologia dominante por meio dos conceitos de miscigenação e mestiçagem para escamotear as desigualdades raciais (MUNANGA, (2017)”.
Ora, ora, nós não somos racistas pois adoramos o samba, a feijoada, o candomblé, o maculelê, a capoeira etc, entretanto, as situações de subalternidade, subserviência, invisibilidade social dos negros em todos os setores da vida nacional são resolvidos pelo binômio socioeconômico (WILLIAN, 2019), no qual sabemos muito bem qual lugar o negro brasileiro ocupa: a margem.
Novamente, em diálogo com Willian (2019) é fundamental problematizar o uso de trajes e
acessórios, como na polêmica dos turbantes ( já ouviram falar?); na expropriação de expressões
artísticas e tradições, como no caso do samba e da capoeira; e também na utilização de símbolos
sagrados e religiosos totalmente esvaziados de sentido e dissociados de sua origem, como se percebe
na comercialização de elementos do candomblé para fins decorativos.
Essa é a centralidade da apropriação cultural, “(…)mas, como se vê, remete a questões bem mais profundas, totalmente ligadas ao sistema de dominação que fazem do racismo no Brasil um crime perfeito (WILLIAM, 2019, p.33).
É um exercício doloroso para alguns o entendimento de que apropriação cultural não é uma
adoção inofensiva de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente
(WILIAM, 2019).
Deflagra-se que a “comercialização” de elementos bem específicos da cultura
negra, reforçam traços de apagamento e subordinação da identidade de um grupo.
Em outras palavras, é um encontro bastante fecundo da exploração do capital no que é lucrativo da cultura dos negros e negras extremamente massacrados em sua história, ciência e principalmente na cultura (e em tudo que ela abrange).
Negro agora é grife, uma vez que há uma glamurização de tudo julgado “interessante” e rentável sob a ótica do racismo estrutural. Podem usar tranças, cultuar elementos da religiosidade, usar adereços, roupas e adornos, o que não se pode é pensar ser uma escolha isenta do racismo estrutural, pois não é.
Referências:
Trânsitos África-Brasil: entrevista com Kabengele Munanga. Revista Observatório Itaú Cultural. N.
- São Paulo: Itaú Cultural, 2016/2017. p. 168- 190. WILLIAM, Rodney. Apropriação cultural. São Paulo/SP: Pólen, 2019. (Coleção Feminismos Plurais

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