ODILON CONCEIÇÃO CUTI – Professor de Filosofia
O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante…. – Bom dia – disse o príncipe. – Bom dia – disse a flor.
Onde estão os homens? – Perguntou ele educadamente.
A flor, um dia, vira passar uma caravana: – Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.
-Adeus – disse o principezinho. – Adeus – disse a flor. (O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry )
O diálogo entre a flor e o principezinho talvez resuma o que costumamos ver no dia a dia: crueldade, avareza, ignorância, individualismo e egocentrismo. Os seres humanos “perderam o rumo”. Nos tornamos um aglomerado de seres ilhados em nossos próprios umbigos.
Alguns dirão: perdemos os valores! Outros, perdemos a essência. Já outros , mais nostálgicos , dirão “no meu tempo era diferente”. E que diferente? Será que mudamos tanto assim? O tempo reflete a mudança do humano ou o humano reflete a mudança do tempo? Segundo o filósofo Heráclito de Éfeso, tudo flui. Todas as coisas mudam sem cessar, numa mistura de contradições e o que temos diante de nós em dado momento é diferente do que foi a pouco e do que será depois: ”
Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também as águas mudaram”. Se as águas mudam para Heráclito e o vento leva o homem, para Saint-Exupéry seguimos o fluxo daquilo que os outros são.
Mas, “interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas pessoas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas – por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados…
Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos. Assim, toda a questão se reduz a isto. Pode a mente humana dominar o que a mente humana criou.” , afirma Zygmunt Bauman , em Modernidade Líquida.
O que Bauman questiona é justamente este “ser” que anseia pelo inesperado. Que tem, como último refúgio, a necessidade de odiar , amar e até matar por amor.
Claro, justificando suas mazelas pela loucura de amar sem medida. Ademais, um ser que encontra até razões para não encontrar medida. O que encontrar, no fim das contas? Nada que não tenha buscado. Nem daquilo que não tenha sonhado.
Por fim, o que procuras, caro leitor? Quiçá buscar o inesperado sem medo de perder-se a si mesmo! Que o vento não leve suas raízes e cativar seja uma constante.

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