A dois meses de completar 10 anos, a tragédia da boate Kiss, que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos, uma intervenção artística inspirada em uma obra de Elida Tessler – Você me dá a sua palavra? – marcará mais um mês do incêndio de 27 de janeiro de 2013 neste domingo (27), às 18h, em frente ao prédio onde funcionava a casa noturna, na Rua dos Andradas, Centro de Santa Maria.
A intervenção faz parte da programação dos 10 anos da tragédia organizada pelo Eixo Kiss – Coletivo de Psicanálise de Santa Maria/RS com apoio da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria.
O EVENTO
Quando? Dia 27 de novembro (domingo).
Horário: 18h.
Onde? Em frente a Boate Kiss.
Na intervenção, a artista visual “convida a transitar do âmbito singular à coletividade e a transformar uma coisa em outra. Isto é, da palavra dada a um poema anônimo e coletivo sustentado por um delicado fio. Para a intervenção do Eixo, a passagem do termo ´dá´ ao termo ´compartilha´´ implica uma via de mão dupla, marcando esta condição fundamental neste contexto de responsabilização coletiva pelas consequências de uma tragédia tão devastadora e ainda impune no âmbito da lei”, diz um trecho da Carta-Convite direcionada aos/às moradores/as de Santa Maria”, divulgada pelo Coletivo de Psicanálise. Abaixo, você pode conferir a Carta-Convite na íntegra.
MENSAGEM A SANTA MARIA
Carta-convite direcionada aos/às moradores/as de Santa Maria
“VOCÊ COMPARTILHA SUA PALAVRA?”
Temos pensado sobre as palavras que nos sustentam à vida. Existem momentos em
que as palavras constroem sentidos, nos permitem organizar nossos mundos particulares,
nos orientam, como verdadeiras bússolas, traçando o mapa de nossas vidas.
Outras vezes, as palavras simplesmente nos faltam, não conseguem nomear, não conseguem explicar o
difícil de uma experiência traumática. Ficamos isolados e nos sentimos sem bússolas tentando sobreviver em uma ilha de silenciamento até que seja possível avistar uma embarcação solidária que nos acolha.
As dores e os sofrimentos gerados pelo incêndio na boate Kiss em 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria, são um exemplo disso. O Eixo de trabalho “Kiss”, do Coletivo de Psicanálise de Santa Maria, propõe fazer furos no silenciamento e fazer registro na construção de uma memória coletiva, abrindo espaço para a elaboração desse acontecimento marcado por dor e sofrimento, para que nunca mais se repita, em lugar nenhum.
Qual é a sua palavra frente a este acontecimento que completará 10 anos no próximo janeiro? Você pode estar conosco neste dia! Você é nossa/o convida/o!
Quando? Dia 27 de novembro (domingo).
Horário: 18h.
Onde? Em frente a Boate Kiss.
Esta intervenção é inspirada em uma obra da artista Elida Tessler (www.elidatessler.site), intitulada “Você me dá a sua palavra?”. Elida solicita ao interlocutor a “sua palavra” escrita em um prendedor de roupas que irá compor um varal com outras palavras.
A artista visual convida a transitar do âmbito singular à coletividade e a “transformar uma coisa em outra”, isto é, da palavra dada a um poema anônimo e coletivo sustentado por um delicado fio. Para a intervenção do Eixo, a passagem do termo “dá” ao termo “compartilha” implica uma via de mão dupla, marcando esta condição fundamental neste contexto de responsabilização coletiva pelas consequências de uma tragédia tão devastadora e ainda impune no âmbito da lei.
E a esta responsabilidade coletiva poderíamos gentilmente atribuir alguns adjetivos que possam se somar de forma solidária a esta dor, tais como afetivo, cuidadoso, gentil, afetuoso…
Compartilhar uma palavra coloca em ação este cuidado e este reconhecimento desta dor. Movimenta o desejo de que esta tragédia não se repita nunca mais, em lugar nenhum. E por que uma palavra? Porque uma palavra basta para fazer furo no indizível de uma experiência traumática.
Uma palavra pode fazer furo no muro escuro do apagamento. Pode fazer ruído na insistência do silenciamento. E a soma dessas palavras pode vir a possibilitar uma inscrição simbólica do que não é possível de expressar, de dizer, de transmitir.
Caso não queira ou possa estar, você pode participar, enviando sua palavra para eixokiss@gmail.com . Tais palavras farão uma com-posição em um fio/barbante, sustentadas por prende-dores como uma forma de fazermos laços pelo que nos une.
Quem propõe?
Compomos o Coletivo de Psicanálise de Santa Maria. Há mais de um ano, o Coletivo dialoga, estuda e pauta intervenções na e para a cidade. Nosso objetivo é buscar construir novos espaços de interlocução da psicanálise com o cenário santa-mariense, compreendendo a importância de nos apropriarmos das narrativas que constituem e atravessam nossa cidade.
Dentre as pautas emergentes na cidade estão os efeitos simbólicos e concretos do incêndio na boate Kiss em 2013. A partir disso, recebemos o novo presidente da Associação/ dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Gabriel Rovadoschi Barros, que compõe a diretoria Gestão “Re-Existir”, em que fazem parte os sobreviventes Delvani Rosso e Cristiane Clavé, além de Marilene
Santos, Darci Andreatta e Lívia Oliveira, pais de vítimas.
Neste encontro, firmamos o compromisso em inaugurar o Eixo Kiss.
Partimos de uma premissa de que temos uma responsabilidade coletiva frente a essa dor. Hannah Arendt, em seu texto “Responsabilidade Coletiva”, nos diz que, ao fazer parte de uma sociedade humana, nos tornamos responsáveis pelos feitos de tal coletivo ao longo da história. Diz ainda que somos responsáveis inclusive por aquilo que não fizemos.
Para tanto, a autora faz uma distinção entre culpa e responsabilidade: somos culpados pelas nossas ações e devemos ser julgados, individualmente, pelos crimes que cometemos. A culpa é sempre individual. A responsabilidade, no entanto, é sempre coletiva.
Tomamos as palavras de Arendt como farol, sendo assim, o Eixo Kiss intensifica as trocas com a Gestão “Re-existir” da AVTSM e compromete-se a construir intervenções na cidade que façam furos no silenciamento e registro na construção de uma memória coletiva, abrindo assim espaço para a elaboração desse acontecimento marcado por dor e sofrimento, para que nunca mais se repita.
Essas intervenções se fazem urgentes, pois sabemos que até o momento não houve a responsabilização judicial pelo incêndio e seus efeitos, o que contribui para a invisibilização do crime e da dor. Além disso, em 27 de janeiro de 2023 o incêndio completará dez anos.
As intervenções objetivam levar as pessoas que, inicialmente, não se sentem “parte”
do acontecimento e podem assim, ressignificar o seu lugar no âmbito coletivo pós incêndio.
Isto pode se dar como uma passagem/travessia de um lugar singular – de algo que toca
individualmente – para um lugar coletivo – o que nos toca enquanto cidade, reconhecendo
um lugar traumático comum, mesmo com todas as diferenças e intensidades de
experiências (e formas de lidar com a dor) frente a um mesmo acontecimento que um
trauma coletivo comporta.
Entendemos que as propostas de escuta, registro e intervenção, que este Coletivo sustenta, como propostas clínico-política. Apoiados na referência da chamada clínica do traumático trabalhada pela psicanalista Miriam Debieux, que entende que para se ter condições de uma escuta que realmente opere, quando se trata de elaboração do traumático na dimensão sociopolítica do sofrimento, são necessárias estratégias coletivas.
É a pré-condição para o luto a retomada de uma coletivização do sofrimento e das
estratégias de elaboração.
Em 27/10/2022, foi realizado a Intervenção “Onde você esta(va)?”
No último dia vinte e sete de outubro (27/10), aconteceu a Intervenção “Onde você esta(va)?”, em que foram realizadas colagens em lambe da pergunta “Onde você estava no dia 27 de janeiro de 2013?”.
Além disso,foram fixados alguns retratos do projeto “Fotografar para Lembrar”, de autoria do Professor Ricardo Ravanello/UFSM, na fachada da Kiss. A tarde de intervenção aconteceu ao som alternado e contínuo de um burburinho imitando uma multidão e da música “Não tenho medo da morte”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Essa música, na versão escolhida, traz a grave e pausada voz de Gil acompanhada de instrumentos que forjam batidas do coração, pois entendemos como um outro propósito destas intervenções: fazer corações baterem para uma história que é nossa.
Também, colamos lambes com QRcode e divulgamos nas redes sociais, um link de um Formulário,
que possibilita a resposta à pergunta “Onde você estava no dia 27 de janeiro de 2013?”. Link que você pode acessar aqui: https://forms.gle/ARod6wma4uxUCXzKA.

“Onde você esta(va)” nos posiciona ao passado e também ao presente, de onde se
está frente a este acontecimento. A pergunta norteadora se propôs a incluir, abrir espaço e lugar para o que toca na experiência singular.
Compreende-se que essa pergunta foi apenas escutada, acolhida e tomada na sua importância, visto que tem sido há quase dez anos o ponto de partida para santa-marienses falarem sobre os efeitos reais e simbólicos do incêndio. Nesta Intervenção, contamos com o apoio da AVTSM, dos registros do Dartanhan
Baldez Figueiredo (acesse as fotos aqui) e da Filmagem da TV OVO.
Até o momento, recebemos 56 retornos ao Formulário e muitos retornos pelas redes sociais e e-mail. Caso você tenha participado desse momento e/ou enviado o formulário, agradecemos! É nessa reelaboração do campo simbólico que cada um pode amarrar seu processo singular. Judith Butler, em seu livro Vida Precária, se coloca a pensar na dimensão pública do luto, o que articula uma perda que pode ser particular a uma perda coletiva:
“Enlutar e transformar o luto em um recurso para a política não é resignar-se à inação, mas pode ser entendido como o processo lento pelo qual desenvolvemos um ponto de identificação com o próprio sofrimento. A desorientação do luto, ”quem me tornei?” ou, de fato, “O que restou de mim?”, “O que perdi no outro?” situa o “eu” no modo do desconhecimento”. Restitui a condição primária social, um “tênue nós”.
Organização: Eixo Kiss – Coletivo de Psicanálise de Santa Maria/RS.
Apoio: AVTSM – Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de
Santa Maria.

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